Ana Paula Niederauer/Estadão
Ana Paula Niederauer/Estadão

'Foi Deus que fez estarmos aqui neste horário', diz vizinha que socorreu criança jogada da janela

Depois de ter jogado a filha, a mulher passou cerca de uma hora trancada no próprio apartamento e ateou fogo às cortinas. Ainda conforme a polícia, Fernanda estava transtornada, portando duas facas, dizendo que iria pular

Ana Paula Niederauer, O Estado de S.Paulo

24 de maio de 2019 | 12h19
Atualizado 25 de maio de 2019 | 09h11

SÃO PAULO - A consultora de RH Nadia Macedo e o marido Carlos Roberto Agili Júnior entravam na garagem do prédio, na Avenida Corifeu de Azevedo Marques, na região do Jaguaré, zona oeste de São Paulo, quando ouviram um barulho do choque de algo pesado contra o para-brisa do carro. Eles não podiam imaginar que era uma criança de três anos, enrolada em lençois, que havia sido jogada pela própria mãe pela janela. 

"Foi Deus que fez a gente estar aqui exatamente neste horário", disse Nadia, que voltava do supermercado com o marido. A criança atingiu o automóvel, quicou e depois caiu no chão, a mais ou menos um metro de distância do veículo. Ele pegou a menina e deixou no colo de Nadia, que é cadeirante. "Ela estava assustada, sem entender o que estava acontecendo. Mas eu consegui acalmá-la", disse ela, que ficou com a garota até a chegada dos bombeiros. 

"A menina ficou uns três, quatro segundos com os olhos fechados, abriu os olhinhos, levantou e me deu um abraço, chorou pouquinho. Na hora fiquei sem reação, tremia, e, depois desse susto, entendo que se não fosse ela ter caído no carro, com certeza ela não estaria viva. Fico triste porque vou lembrar dessa cena pelo resto da minha vida, mas feliz por ter salvado a vida dela", disse Agili Júnior. 

Nadia verificou se havia algum ferimento na menina. "Ela só tinha alguns arranhões nas costas. Falou que estava com frio e ficou conversando, contando a idade, o nome e depois assistiu alguns vídeos de desenho no celular da minha mulher", disse Agili Júnior. "A menina ficou muito tranquila. Não dá para acreditar que ela foi jogada do quinto andar. Foi milagre e espero que nunca mais eu veja uma situação dessa na minha frente. Uma experiência que não desejo a ninguém."

De acordo com a Polícia Civil, a mãe, a estudante Fernanda Fernandes Garcia, de 29 anos, cortou a tela de proteção da janela e atirou a filha por volta de 0h20, do quinto andar do edifício. A menina estava dormindo quando foi arremessada pela janela.  

Depois de ter jogado a filha, a mulher passou cerca de uma hora trancada no próprio apartamento e ateou fogo às cortinas. Ainda conforme a polícia, Fernanda estava transtornada, portando duas facas, dizendo que iria pular. Policiais tentaram acalmá-la, mas ela ateou fogo no apartamento. Assim que os bombeiros entraram no imóvel, Fernanda se jogou pela janela.  

"Eu fiquei dentro do prédio, junto com os policiais, e não vi quando ela se atirou. Escutei um barulho muito forte quando ela caiu", disse Agili Júnior. 

Segundo o Hospital das Clínicas, a criança tem quadro de saúde estavel. A mãe teve fraturas múltiplas e seu quadro é critico.

"Graças a Deus ela (a criança) passa bem", afirmou Nadia, que mora no quarto andar do prédio, mas não conhecia Fernanda nem a filha. A mãe foi indiciada por tentativa de homicídio e incêndio. O boletim de ocorrência foi registrado pelo 91º DP (Ceasa). 

Caso Nardoni

O episódio lembra um crime que chocou o País: o assassinato de Isabella Nardoni, em 29 de março de 2008. O júri entendeu que os autores do crime foram o pai, Alexandre Nardoni, e a madrasta, Anna Carolina Jatobá, condenados a 30 e 26 anos.

Alexandre, pai da criança, foi condenado a 30 anos e dois meses de prisão, enquanto a madrasta Ana Carolina recebeu pena de 26 anos e oito meses. Os dois estão presos em penitenciárias de Tremembé, no interior paulista.

Em maio, Alexandre foi transferido para o regime semiaberto. Ele deixou sua cela na ala do regime fechado e foi levado para as dependências mais amplas do semiaberto na mesma penitenciária. 

Anna Carolina Jatobá, condenada pelo mesmo crime, já é beneficiária das saídas temporárias desde 2017 e, no dia 7 de março, saiu da prisão para passar em casa o Dia das Mães.

 

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