Fogo na favela

Aos 12 anos, Suelen Gomes viu sua casa ser destruída pelo fogo que queimou a Favela Buraco Quente, na zona sul, em 2004. A família conseguiu erguer uma casa de alvenaria e hoje batalha para construir um futuro para a jovem e seu filho

24 de janeiro de 2012 | 20h26

Aquele foi de longe o dia mais assustador da vida de Suelen Gomes. O incêndio começou por volta do meio dia do dia 30 de agosto de 2004, quando Suelen, uma garota franzina que tinha apenas 12 anos, estava sozinha em casa com sua irmã de 4. Primeiro ela ouviu a gritaria dos vizinhos que subiam correndo as vielas da Favela Buraco Quente, próxima ao Aeroporto de Congonhas, na zona sul. Esticou o pescoço na janela do seu barraco e viu lá embaixo, no meio do aglomerado, o fogo se alastrando pelas casas de compensado, lona, madeirite e laje.

Assustada, Suelen não conseguiu prever a dimensão que o incêndio tomaria. Ela agarrou a irmã pelos braços e correu para a casa da tia, que ficava bem mais próxima do fogo do que a sua própria. Chegando lá, todos já saíam em direção a um campo de futebol fora da favela, tentando salvar o que podiam. A estudante foi junto, deixou a irmã no campo e voltou à sua casa para resgatar o que tinha de mais importante: seu cachorrinho. Após tirá-lo, não aguentou mais bancar a valente. Encostou-se na porta de madeira, abaixou a cabeça e chorou, enquanto o fogo consumia seu barraco.

Suelen, hoje mãe do Symon. Fotos: JF Diorio/AE

O momento foi imortalizado pela câmera do repórter fotográfico José Francisco Diorio e publicada na primeira página do Estado do dia seguinte. Menos de um ano depois, em 2005, essa mesma fotografia ganhou o World Press Photo, um dos mais importantes prêmios de fotojornalismo do mundo, na categoria “General Press” (notícias gerais). Na semana passada, Diorio voltou à favela. Encontrou uma Suelen já mãe de família, que, apesar de mais sorridente e esperançosa, ainda carrega uma angústia parecida à de 2004 diante de um futuro incerto.

Ela conta que parou de estudar no primeiro ano do Ensino Médio, assim que engravidou do namorado. Seu filho, Symon, tem hoje cinco meses de idade. Suelen, atualmente com 20 anos, enfrenta um dilema que se repete em mulheres da sua idade nas favelas paulistanas – além de criar o filho enquanto tenta terminar os estudos, terá de equilibrar sua vontade de fazer uma faculdade (plano que ela acredita ser improvável) com a necessidade de começar logo a trabalhar para ajudar a pagar as contas. “Ainda não quero colocar o Symon na creche, porque ele está muito novinho. Só daqui a alguns meses. Aí sim vou tentar voltar à escola e procurar um trabalho”, afirma.

Inversão. A situação no Buraco Quente, por outro lado, melhorou bastante de lá para cá. “Antes a favela não tinha coleta de lixo nem rede de esgoto, coisas que temos agora”, comemora a mãe de Suelen, a auxiliar de limpeza Rosângela Augusta, de 45 anos. Para ela, a maior mudança foi a casa de alvenaria, só erguida após a família morar por mais de um ano em uma tenda de lona armada em uma das calçadas da favela.

Rosângela diz que isso só foi possível por causa das doações. “A Prefeitura doou R$ 2,5 mil e o chefe do meu marido deu os tijolos. Daí o pessoal aqui da favela se juntava nos fins de semana para ir construindo, pouco a pouco.” Ela também confia na mesma solidariedade para, logo, conseguir um emprego para a filha. “Queria que ela fizesse um curso, pois só quem estuda ganha bem trabalhando pouco”, diz Rosângela. Mas ambas sabem que, assim como aconteceu após o incêndio, construir esse futuro será tarefa árdua.

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