Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

'Fluxo' na cracolândia volta a crescer e Prefeitura quer parceria com Estado

Coordenador do programa De Braços Abertos, que adota modelo de trabalho e integração, quer aliança com projeto estadual Recomeço

Bruno Ribeiro, Daniel Bramatti, Rodrigo Burgarelli, O Estado de S.Paulo

22 Novembro 2015 | 02h04

 

A concentração de dependentes químicos no chamado "fluxo" da cracolândia voltou ao tamanho que tinha antes de maio deste ano, quando chegou a ser reduzido a 50 pessoas, após uma operação policial. Agora, novamente, mais de 450 pessoas se agrupam no local. Sem novas estratégias para enfrentar o problema, a gestão Fernando Haddad (PT) busca apoio do governo do Estado, que defende a internação dos usuários da droga.

Para contar com precisão a população da cracolândia, o Estado usou uma foto aérea, feita há duas semanas, com apoio da Rádio Estadão. A imagem de uma quinta-feira, no período da manhã, revelou a presença de exatas 452 pessoas no fluxo, zanzando em um trecho de 62 metros na Rua Dino Bueno, entre a Alameda Glete e a Rua Helvétia, no centro.

As imagens mostram também que, para evitar as câmeras de segurança da Prefeitura, os usuários usam guarda-chuvas para bloquear a visão das bandejas de crack. A foto revela 16 dessas bandejas, onde as pedras ficam expostas.

Ao ser confrontada com a imagem, a gestão Haddad ressaltou que o "fluxo" era de 1,5 mil usuários antes do início do programa De Braços Abertos, em janeiro de 2014, mas admitiu que sua estratégia para a região tem limitações e chegou à capacidade máxima de aderência de novos dependentes. Para o gestor do programa, Benedito Mariano, só a ação policial de combate ao tráfico conseguirá dispersar o fluxo. "A atribuição de fazer combate ao tráfico é da polícia. As áreas sociais são da Prefeitura", afirma.

Em maio, segundo gestores do programa, foi isso o que aconteceu. Durante três semanas, o fluxo foi reduzido a 50 pessoas porque as pedras pararam de chegar. Mas, passado esse período, os traficantes se reorganizaram e voltaram a achar meios de chegar lá.

Mudança. Ao alcançar o teto de ação da proposta, a gestão anuncia uma guinada no De Braços Abertos. O programa é conhecido por seu caráter antimanicomial, com foco nas ações de redução de danos, sem exigência de abstinência da droga. Os dependentes que se inscrevem nele recebem hospedagem, alimentação, cursos profissionalizantes e um emprego, com pagamento de R$ 15 semanais. Segundo a Prefeitura, o programa tem 505 inscritos.

É uma ação diferente do programa Recomeço, do governo do Estado, que trabalha com proposta de internações para desintoxicação dos dependentes, com moradia assistida e previsão de testes antidoping. Mas Mariano afirma que o momento, agora, é de buscar reforçar as parcerias entre as duas propostas. "Já fiz quatro reuniões com a coordenação do Recomeço e estamos construindo um termo de cooperação. Depois de as duas coordenações reverem uma diretriz de trabalho comum, vamos levar ao prefeito", diz o coordenador do De Braços Abertos.

"Estamos estabelecendo uma relação muito amistosa e de integração entre o De Braços Abertos e o Recomeço. Temos concepções diferentes no trato dos dependentes químicos, mas temos a dimensão de achar que um projeto completa o outro e são aliados. Vemos o Recomeço como aliados e isso vai ser transformado em um termo de cooperação", continua.

Pelo termos, que ainda terão de ser aprovados pelo prefeito Haddad e pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB), as abordagens de novos pacientes serão feitas de forma conjunta. Uma das características da ação do governo do Estado é a internação compulsória dos pacientes, que ocorre tanto a pedido das famílias dos pacientes e com pareces médicos quanto a partir de decisões judiciais. Um balanço dessas ações obtido pelo Estado e publicado em agosto revelou que, em dois anos de ações, 1.378 pessoas foram internadas à força - uma a cada 16 horas.

Diretor do Centro de Referência de Álcool, Tabaco e Outras Drogas (Cratod), Marcelo Ribeiro diz que Estado e Prefeitura já têm uma atuação conjunta na região. "Firmamos um termo de cooperação em abril de 2013. Além disso, ali, somos todos SUS (Sistema Único de Saúde)", afirma. Segundo Ribeiro, a maior parte das internações ocorre a pedido do paciente. "Nesse período (desde abril de 2013), já fizemos 11 mil internações", afirma. "Desse total, 2.168 pessoas eram pacientes vindos da cracolândia."

Polícia. A cracolândia passa por três limpezas feitas com jatos de água todos os dias, às 9, 15 e 17 horas. O trabalho das equipes, que chegam a usar máscaras e luvas cirúrgicas, é acompanhado por cordões de guardas-civis, que usam os mesmos equipamentos de proteção. Em três visitas ao local nas últimas três semanas, apenas uma base da Polícia Militar estava na região, no Largo Coração de Jesus. Em uma das visitas, havia uma equipe também na Alameda Barão de Piracicaba.

"Agora o que tem é só a guarda, que não deixa o pessoal entrar de carrinho, entrar com muita coisa. Mas eles não vão para cima de todo mundo, porque se forem os caras partem para cima. Então, ficam só olhando", comenta um comerciante que trabalha perto do fluxo. A PM nega redução de efetivo. A Guarda Civil Metropolitana diz que dobrou o efetivo no local desde a operação realizada em maio.

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