DANIEL TEIXEIRA/ ESTADÃO
DANIEL TEIXEIRA/ ESTADÃO

Flexibilização dá novo fôlego à noite de SP, com festas que começam mais cedo e vão até mais tarde

Jovens retomam o convívio social e voltam a lotar baladas em busca do ‘tempo perdido’ ao longo da pandemia

João Ker, O Estado de S.Paulo

14 de abril de 2022 | 05h00

Após dois anos de pandemia, os jovens que ficaram em casa agora voltam a lotar bares, boates e casas de show da capital, chegando mais cedo e voltando mais tarde em busca de recuperar o “tempo perdido”. O “after” depois das festas, apesar de existir há anos, também ganhou nova força diante da ansiedade para colocar o papo em dia e conhecer gente nova. A desobrigação do uso de máscaras, em março, foi o último sinal que a vida noturna precisava para voltar com toda a sua potência – ou pelo menos tentar.

"Esse tempo me fez crescer. Antes, tentava me encaixar onde ia, mas agora me entendo melhor. Troquei meus amigos, briguei com uns e me afastei de outros", lembra o bailarino Guilherme Zoboli, de 20 anos. Sua primeira balada foi em novembro, 15 dias depois de ter tomado a segunda dose da vacina, porque até então tinha medo de prejudicar a saúde dos pais de 46 e 56 anos, com quem mora em São Bernardo do Campo. "Gosto de conhecer gente nova e a pandemia me privou disso. Achei que ia morrer."

A maioria dos jovens admite ter se sentido confortável para retomar o convívio social e a vida noturna a partir da segunda dose de vacinação. "É muito mais por saber que, agora, a população está protegida e vacinada", comenta o designer mineiro Leandro Costa, de 26 anos, que se diz "muito baladeiro desde sempre", mas reconhece que algo mudou em si e na noite de São Paulo.

Os seis meses ou quase dois anos de reclusão social aos quais a população foi submetida de forma compulsória ou voluntária, a depender de quem você perguntar, fez com que um mergulho interno se tornasse inevitável. Sem as caixas de som estourando, BPMs acelerando, gente gritando e flashes piscando nas pistas de dança, o momento impôs uma pausa à correria da vida noturna e boêmia na metrópole, que talvez não viria tão cedo para quem usava as baladas como forma de escapismo.

Assim, a volta das baladas atiçou um hábito curioso na noite de São Paulo, observado tanto por quem frequenta quanto por quem comanda as casas de show e boates: o público tem chegado mais cedo, saído mais tarde e consumido uma quantidade maior de álcool. Isso não quer dizer, entretanto, que a nova sede de um drink e de viver tenha tornado os jovens mais irresponsáveis no convívio social. Pelo contrário, muitos relatam que o afastamento fez crescer a atenção e valorização do próprio tempo, um efeito colateral do "autocuidado" que se tornou quase um mantra da positividade na pandemia. 

"Como envelheci nesse período, sinto que fiquei um pouco mais criterioso. Tento não gastar meu tempo em lugares que sei que não terão uma entrega mínima de qualidade pra eu me divertir. Hoje quero usar meu tempo de uma forma melhor", conta o fotógrafo Gustavo Ipólito, de 33 anos. "Sempre fui uma pessoa que saía mais cedo e voltava mais cedo. Hoje, costumo voltar de manhã."

Inimigos do fim e adeptos ao after

O reencontro com amigos e essa nova priorização do bem estar tem aumentado a aderência ao "after", um hábito já popular bem antes da pandemia e que agora se expande não só para as casas de amigos, mas também para os bares do centro. Locais como a Praça Roosevelt, o Largo de Santa Cecília ou os hypados Bar da Bete e Lasanha, que antes serviam de ponto para o "esquenta" antes de a noite começar, agora lotam até as primeiras horas da manhã, mesmo que boa parte do público tenha que ficar em pé na rua ou na calçada.

Por definição, o "after" é tudo que vem depois da festa escolhida para aquela noite e pode acontecer tanto em uma segunda balada quanto na casa de alguém ou em um bar. A ideia é que a noite não tenha fim e, para isso, basta reunir os "mais chegados", lguns agregados, boa música e mais bebida.

"Essa retomada, pra mim, tem duas facetas: querer ficar muito no rolê, e ao mesmo tempo aquilo ali logo cansar. No meu caso, é essa segunda opção. A gente ficou muito tempo longe dos amigos também, então o after tem esse intuito de conversar e conhecer gente nova de outro jeito, que não dá na festa em si, onde ainda é muito close", conta a consultora de imagem Natalia Borba, de 28 anos. 

Sem hora para acabar, o "after" pode emendar baladas da noite de sexta-feira até a manhã da segunda seguinte e é uma opção para quem quer colocar o papo em dia depois de ter gastado energia na boate, onde o "close" citado por Natália mais atrapalha do que ajuda a socializar. Como ela explica, o hábito também serve como uma "pausa" na noite (no bar, na casa de alguém ou até em uma festa menos "fervida"), algo que tem se tornado ainda mais comum à medida que muitos se sentem "sobrecarregados" e despreparados para lidar com o repentino excesso de interações sociais em um curto espaço de tempo.

“Tenho achado questionador voltar às festas”, relata o publicitário Pedro Castilho, de 29 anos. "É um momento de reconstruir relações, com as nossas amizades, com os espaços, com as interações… É esse lugar de repensar tudo, com o meu corpo, minhas regras e quais os meus limites. Estou mais suscetível a não fazer nada por impulso. Agora, vou aonde quero estar e onde minha presença faz sentido."

Para quem curte o after na noite paulistana, apenas uma regra traz o fim do fervo: quando acaba a música. "O povo, louco como é, vira três dias dançando se deixar", observa Ipolito. 

Retomada do setor

O Estadão acompanhou o movimento ao longo de uma noite no Lions Nightclub. A casa, que abre às 23h30 na sexta-feira, já estava praticamente lotada uma hora depois, e a fila do bar já impunha uma espera de quase 15 minutos para o atendimento. Na pista, o público dançava sem máscara e sem pudor sucessos novos e nostálgicos do pop, alguns deles lançados por artistas como Kylie Minogue, Anitta, Lady Gaga e Dua Lipa durante a pandemia.

O empresário Cacá Ribeiro, de 59 anos e um dos sócios da Lions, investe na cena noturna de São Paulo desde 1992 e conta que agora vê algo "impensável" até então: um público disposto a chegar às 21h na boate e se misturar com outras tribos. Não é mais tão raro assim ver a galera do techno se misturar aos fãs de pop, à galera do rap ou quem mais apareça, uma fusão mais encontrada na noite carioca e que agora começa a dar as caras por aqui.

"Antes, cada noite tinha suas bordas bem definidas. Essas fronteiras agora estão ficando mais tênues. Sinto aumento de consumo, de fluxo e de mistura, e maior permanência. Os públicos estão mais misturados, nas três casas. O Baile do Leão, que seria a nossa noite mais hétero, está tendo atrações que iriam na Yatch, mais LGBTI+, por exemplo", conta.  

Responsável também pelo Jerome e pela Yacht, Cacá é um caso de sucesso na noite paulistana e conseguiu manter as portas abertas dos três estabelecimentos, mesmo que tenha esperado quase dois anos para que eles voltassem a dar o lucro de antes. "Tivemos que segurar isso no limite do limite. Muitas vezes, é preferível colocar o pouco de dinheiro que é possível e manter os funcionários do que fechar o negócio e ter que arcar com esses custos", explica.

Para outros, entretanto, fechar as portas foi inevitável, mesmo que a recuperação já esteja a caminho, como é o caso de André Almada, um dos nomes por trás da The Week, principal boate gay de alto padrão na ponte Rio-São Paulo. Durante a pandemia, as duas filiais da casa noturna nas capitais paulista e carioca encerraram o funcionamento.

Desde o fim do ano passado, Almada tem feito festas esporádicas nas duas cidades e, agora, anuncia que vai abrir uma nova boate nos próximos meses. "É claro que a pandemia impactou a economia como um todo, mas uma casa noturna é um espaço fechado com pessoas aglomeradas se divertindo. Era impossível reproduzir a experiência do encontro físico, de estar dentro de uma boate com seus amigos, com lives, por exemplo", conta.

Empresários do setor noturno esperam que o prejuízo da pandemia seja recuperado em, no máximo, três anos. "Acho melhor retomar o trabalho e não fazer conta do passado, viver para o futuro", observa Facundo Guerra, empresário de 48 anos responsável por casas como o Cine Jóia e a nova versão do L’Amour, que deve estrear mais tarde este ano. "Tem gente que perdeu a vida.Se eu perdi só dinheiro e tempo tá ótimo."

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