REUTERS/Jamil Bittar
REUTERS/Jamil Bittar

'Fizemos tudo para que nada daquilo ocorresse', diz ex-presidente da Anac

Para Milton Zuanazzi, tragédia com avião da TAM que deixou 199 mortos há dez anos foi decorrente de 'falha humana'

Vitor Hugo Brandalise, O Estado de S. Paulo

09 Julho 2017 | 03h00

Desde que deixou a presidência da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), três meses depois do acidente com o avião da TAM, Milton Zuanazzi não voltou mais ao serviço público. Ele foi o primeiro civil a chefiar a agência, criada em 2006 (substituiu o antigo Departamento de Aviação Civil, ligado à Aeronáutica), e teve sua gestão marcada pela crise aérea, com greve de controladores de voo e dois grandes acidentes. Uma das 11 pessoas apontadas pelo Ministério Público de São Paulo como responsáveis pela tragédia, Zuanazzi teria sido, na visão do órgão paulista, negligente em relação à segurança em Congonhas. Apesar dos “notórios problemas de segurança do aeroporto, não se identifica nas pautas do colegiado qualquer discussão a respeito”, aponta o parecer do promotor Mário Luiz Sarrubbo. Posteriormente, Zuanazzi foi deixado de fora da lista de indiciados pelo Ministério Público Federal.

Hoje Zuanazzi voltou a atuar exclusivamente no setor do turismo e vive em Florianópolis (SC), como sócio e dirigente da Sociedade Brasileira de Turismo, uma rede agências de viagens. Ao lembrar do acidente, ele fala em “tristeza profunda”. “É um setor extremamente regrado e por isso mesmo é muito seguro. Então, quando ocorre um desastre como aquele cria um fato histórico, a ser lembrado aos 10, 20, 50 anos.  É um sentimento muito ruim, porque tenho a consciência limpa de que fizemos tudo para que nada daquilo ocorresse.”

O engenheiro químico que começou na carreira política como vereador pelo PT em Porto Alegre se diz “injustiçado”, principalmente pela cobertura da imprensa na época. “Houve muita injustiça comigo e com a Anac, uma atrás da outra. Estávamos saindo de uma crise aérea, com um movimento de greve de controladores, e o acidente ocorre no meio disso, mesmo que não fossem relacionados. Então fica a imagem de descontrole, mas não era assim. Havia o transtorno das pessoas e uma enorme irritação, muitas vezes com razão. Mas isso não impactava a segurança.”

Sobre o acidente, ele fala em “erro humano”. “A maioria dos acidentes aéreos se dá por falha humana. Foi esse o caso, também, infelizmente.” Entre 2006 e 2008, Zuanazzi prestou depoimento seis vezes a CPIs criadas na Câmara e no Senado para investigar o caos aéreo. “Eu era obrigado a ficar na linha de frente. Até por questões políticas, eu era o indicado a enfrentar aquilo tudo (na época, o governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva sofria desgaste com a crise nos aeroportos). Foi um exagero, virou um palanque, um absurdo o nível de exposição. Sempre viajei em avião de carreira, então as pessoas me reconheciam nos aeroportos, xingavam... Foi muito difícil.”

Apesar do desgaste na imagem, ele diz não se arrepender de ter assumido o cargo. “Foi uma tarefa que recebi do setor do turismo ainda na criação da Anac, pelo peso que temos no setor aéreo brasileiro. Não me arrependo, mas não vivi dias fáceis. Me tornei especialista em crises.” Ele faz uma mea culpa: não deveria ter ido à cerimônia de entrega da Medalha Santos Dumont, concedida pela Força Aérea em 20 de julho de 2007, três dias depois do acidente, “por serviços prestados à Aeronáutica”. “Aceitei de bom grado, porque francamente eu ajudei as coisas a voltarem à normalidade naquele contexto de crise. Estava tranquilo em relação a isso. Mas, de fato, olhando hoje, mais experiente, poderia ter recebido a medalha em casa, sem aparecer. Muitos se incomodaram com aquele gesto, no meio daquela situação.”

 

Mais conteúdo sobre:
Anac TAM Congonhas

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.