'Fiz pelos meus filhos', diz preso

Desemprego e falta de oportunidades na Europa são principais justificativas dos detidos com drogas em Cumbica

O Estado de S.Paulo

11 Março 2012 | 03h02

Prestes a embarcar em um voo de Guarulhos para Madri, o espanhol Alfredo Gomes Crespo, de 45 anos, não conseguia esconder sua inquietação enquanto aguardava no Aeroporto de Cumbica. Para os policiais federais, era o sinal de que precisavam para fazer a abordagem. Na mala do espanhol, eles acharam cinco quilos de cocaína. "Fiz pensando em sustentar os meus dois filhos, de 1 ano e meio e de 6", justifica-se o agricultor, que ganharia 5 mil (cerca de R$ 11,5 mil) pelo transporte da droga.

A transformação na vida de Crespo não começou em dezembro, quando passou a se vestir com o uniforme amarelo da Penitenciária de Itaí, unidade reservada a estrangeiros no Estado de São Paulo. A grande mudança ocorreu faz 14 meses, quando se viu pela primeira vez na vida sem emprego em um dos vinhedos de Logroño, pequena cidade onde cresceu. "A Espanha foi piorando até chegar a isso, esse estado assustador", repetiu Crespo mais de uma vez durante entrevista ao Estado.

Vivendo com os 850 da assistência social, a família passava por dificuldades. Foi então que um amigo lhe contou sobre como era fácil levar drogas do Brasil para a Espanha. "Disseram para mim que o aeroporto estava 'comprado'", lembra. Ao chegar a São Paulo, foi hospedado por traficantes em um hotel precário, na Rua 7 de Abril, na República. Não recebeu orientação nenhuma sobre como agir, e a mala com a droga só foi entregue pouco antes do embarque.

Desde aquele dia, diz que não vê a hora de receber a sua condenação. Só assim terá o direito de trabalhar e, a cada três dias de jornada, ganhar um de liberdade. "Mata ficar o dia todo sem fazer nada", conta ele. Crespo afirma que o contato por correio com a mulher ajuda a aliviar o sofrimento, mas diz que evita falar com o restante da família. "Minha mãe tem 87 anos. Se souber que estou preso no Brasil, morre."

O português Gabriel Guilherme Vieira, de 43 anos, não tem ideia se a família sabe onde ele está. Ex-chef de cozinha, ele cai no choro quando tenta imaginar a reação dos dois filhos adolescentes quando souberem da prisão. "Estou muito arrependido do erro que cometi", diz. Nativo da Ilha da Madeira, há um ano ele perdeu o emprego em um restaurante no sul da Inglaterra. "Fiquei desesperado, precisava pagar o aluguel, que lá é semanal", conta. Acabou aceitando uma proposta de 10 mil pelo trabalho como "mula". "Queriam que eu engolisse a cocaína, mas isso eu não aceitei. Não correria dois riscos, o de ser preso e o de morrer."

Voou de Barcelona para o Rio, onde foi recebido por dois brasileiros que o levaram a um casebre no meio de um matagal, na divisa com São Paulo. Após dez dias no local, foi levado para Cumbica. Às 14h30 de 2 de fevereiro, agentes da PF descobriram o pó branco escondido em placas de silicone dentro da mala dele. Vieira diz que perdeu 10 kg desde aquele dia. Não teve acesso a advogado ou recebeu visitas de funcionários do Consulado de Portugal. "Tudo que tenho é um short, uma calça rasgada e duas camisetas." O consulado foi contatado por e-mail, mas não respondeu.

Por enquanto, como todo preso recém-chegado, está isolado, mas já teme o contato com outros detentos. "Nunca tive problema com a Justiça, não sei como vai ser quando estiver com os outros." Certamente o português vai ouvir muitas histórias como a sua, de desempregados que aceitaram se tornar mulas do tráfico. No entanto, também conhecerá muitos que se dizem inocentes.

O espanhol Pedro Fuental, de 27 anos, por exemplo, conta que levava uma mala para um amigo de infância que não queria pagar excesso de bagagem. "Confiei demais e fui traído." Ele afirma que era motorista de caminhão em Maiorca e ganhou de aniversário da mulher a viagem ao Brasil.

O português Fernando Pereira Coelho, de 58 anos, diz que ganhou a viagem como pagamento de uma dívida e aceitou a mala do amigo de um amigo de presente. Também há o búlgaro Galabin Boevski, de 36 anos, campeão olímpico, que não sabe como a cocaína foi parar na bagagem.

O defensor público federal Fernando Carvalho afirma que absolvições são raras entre os estrangeiros presos por tráfico. "A maioria confessa para obter benefícios legais", diz. A duração da pena dependerá da rigidez do juiz. "Há pessoas que são presas nas mesmas circunstâncias, com a mesma quantidade de droga. Uma pega 1 ano e 8 meses; a outra, 10 anos." / ARTUR RODRIGUES

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