Fiscalização da nova lei seca esvazia bares da Vila Madalena

Movimento na região caiu pela metade, segundo empresários da região, que cobram mais opções de transporte

Diego Cardoso, O Estado de S.Paulo

22 Março 2013 | 23h03

Desde que as regras da Lei Seca ficaram mais rigorosas para motoristas, a boêmia Vila Madalena, em São Paulo, tem ficado mais vazia. As novas regras, implantadas no final de janeiro, foram responsáveis por uma redução de 50% no movimento de consumidores nos bares e restaurantes da região, afirma o representante da Associação de Gastronomia, Entretenimento, Arte e Cultura da Vila Madalena (Ageac), Flavio Pires. Em alguns bares, funcionários foram demitidos e o horário de atendimento foi reduzido por conta da ausência de clientes, temerosos das blitzes organizadas no local.

Na região, taxistas e clientes relatam blitzes, principalmente nos finais de semana, nas ruas Fradique Coutinho, dos Pinheiros e Cerro Corá, além das avenidas Sumaré, Doutor Arnaldo e Pompéia. Veja abaixo no mapa:

Alguns intrépidos que se arriscam acabam retidos nas barreiras policiais, aponta o gerente de vendas Carlos Afonso Lopes Júnior que, por não beber, acaba resgatando alguns colegas nas barreiras. "Tenho uns amigos que evitam vir pra cá por causa da Lei Seca. Depois desse aperto que houve, a frequência diminuiu bastante."

Veja abaixo o depoimento de Carlos Afonso Lopes Júnior em vídeo:

 

Quem resolve não arriscar acaba com poucas opções. O horário de funcionamento da estação de metrô mais próxima da região, ligada à linha 2-verde, vai até às 0h14 nos dias de semana e à 1h da manhã na madrugada de sábado para domingo. A frequência das linhas de ônibus que passam pela região é menor depois da 0h. Sobram os táxis, que não são acessíveis para todos e, segundo donos de estabelecimentos comerciais na região, não estão disponíveis em número suficiente para atender a demanda. Na noite de quinta-feira (21), de seis pontos de táxi consultados pela reportagem do Estado, apenas dois atenderam às ligações.

A falta de uma alternativa para os motoristas acaba interferindo no consumo na Vila Madalena, aponta Flavio Pires, que, além de representar o Ageac, possui bares no bairro. "Os comerciantes estão desanimados com essa situação. A gente concorda com a legislação, mas o órgão público precisa dar uma estrutura adequada de transporte." Segundo ele, nenhum representante do Estado procurou os empresários da região para propor soluções ou explicar a nova configuração da Lei Seca. "Após alguns acidentes absurdos, o governo passou a aplicar com mais rigor a lei. Sempre se espera ocorrer algo grave para tomar uma solução."

Ouça o depoimento de Flavio Pires sobre a questão aqui

Na falta de clientes, a vida noturna da região começa a se adaptar. Dono do Bar Jacaré Grill há 22 anos, Marcelo Silvestre relata que, no mês de fevereiro, a Lei Seca não impactou tanto nos negócios. Porém, a partir de março o movimento caiu entre 30% e 40%, com forte redução no consumo de cervejas. "Perdi muitos clientes que não têm costume de pegar táxi e evitam vir. Não temos transporte público para ter uma lei como essa." Ele e outros empresários da região tentam criar soluções para atrair o público, como oferecer, de graça, jantar e cerveja sem álcool para quem for dirigir, sem muito sucesso. "O cliente ainda não se adaptou, pois ele ainda não está aberto a que os bares estão proporcionando de desconto, táxi na porta... Não chegou um meio termo pra todo mundo."

O Estado procurou mais cinco empresários e profissionais de bares na região para falar sobre o assunto. Todos eles relataram uma queda considerável no número de frequentadores desde que as novas regras da Lei Seca entraram em vigor.

Os empresários da Vila Madalena devem se reunir para planejar uma campanha sobre a Lei Seca voltada ao consumidor, diz o representante da Ageac. Enquanto os bares buscam uma forma de reduzir o impacto do problema, os frequentadores acabam deixando a cerveja de lado. O funcionário público Daniel Bertelli mora em Jundiaí e prefere passar a noite a base de refrigerante para não ter problemas. "Decidi não beber por causa da blitz e porque sou motorista de motocicleta. Qualquer quantidade de álcool já interfere." Os colegas de Bertelli acabam bebendo em outros lugares ou em casa por causa da forte fiscalização. "O pessoal fica com um pouco de receio em regiões visadas pelas blitzes como a Vila Madalena."

Ouça o depoimento de Daniel Bertelli sobre a situação na Vila Madalena aqui.

Tolerância zero. Desde o dia 29 de janeiro, data de publicação da Resolução 432 do Conselho Nacional de Trânsito (Contran) no Diário Oficial, o motorista que for flagrado com qualquer concentração de álcool no sangue é autuado por infração gravíssima: multa de R$ 1.915,30, habilitação recolhida, direito de dirigir suspenso por 12 meses e veículo retido até a indicação de um condutor habilitado. Além disso, se o teor alcoólico superar os 0,34 miligramas por litro de ar, quantidade equivalente a, aproximadamente, seis latinhas de cerveja ou três doses de uísque, o infrator também responde a processo criminal, com penas variando entre seis meses a três anos de prisão, além do pagamento de multa e da cassação da CNH.

O motorista até tem o direito de se negar a fazer o teste do bafômetro. Nesses casos, o agente de trânsito preenche o formulário "Sinais de Alteração da Capacidade Psicomotora", com perguntas sobre as características físicas e psicológicas da pessoa parada na blitz. Além disso, o condutor também poderá ser encaminhado à delegacia.

Governo. O Detran de São Paulo informa, por meio de nota, que, no Carnaval, o Governo do Estado de São Paulo lançou o Programa Direção Segura, com a integração das equipes do Detran.SP e das Polícias Militar, Civil e Técnico-Científica. O projeto envolve ações de educação com abordagens em bares, restaurantes e festas. A instituição acrescenta ainda que, no Carnaval, bares da Vila Madalena foram visitados em ações voltadas para os consumidores. Os frequentadores receberam um kit com folder explicativo, "bafômetro" descartável, porta lixo para carro, adesivos, chaveiro e caneta, com o slogan da campanha: "São Paulo pela vida". Os motoristas parados durante as blitze também recebem o kit.

Em relação ao contato com o empresariado, a assessoria do Detran afirma que faz parte do escopo do programa uma aproximação e envolvimento com os empresários.

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