Fiscal que acusa secretário de Haddad e outros dois auditores serão exonerados

Fraude na Prefeitura. Paula Sayuri Nagamati, supervisora técnica na Secretaria de Assistência Social, afirmou em depoimento ao MP que três dos acusados de desviar a cobrança de ISS deram apoio financeiro à campanha de Antonio Donato a vereador

Artur Rodrigues, Bruno Ribeiro e Diego Zanchetta, O Estado de S.Paulo

07 Novembro 2013 | 02h00

Após prestar depoimento acusando o secretário municipal de Governo, Antonio Donato (PT), de receber dinheiro de campanha da quadrilha que fraudava o Imposto sobre Serviços (ISS), a servidora Paula Sayuri Nagamati será exonerada de cargo de chefia na Prefeitura de São Paulo. Outros dois fiscais suspeitos de envolvimento com o grupo, Moacir Fernando Reis e Arnaldo Augusto, também perderão os cargos. Até agora, dez fiscais são alvo de investigação.

Paula foi chefe de gabinete da Secretaria Municipal de Finanças durante a gestão de Gilberto Kassab (PSD), quando o titular da pasta era Mauro Ricardo. Na gestão de Haddad, foi nomeada como supervisora técnica na Secretaria Municipal de Assistência Social (SMADS), a cargo de Luciana Temer (PMDB), filha do vice-presidente Michel Temer (PMDB).

A exoneração, que deve sair nesta quinta-feira, 6, no Diário Oficial da Cidade, é a segunda na SMADS por causa do esquema de corrupção. A outra foi na semana passada, do servidor Fábio Camargo Remesso, também do PMDB.

A coluna Direto da Fonte, de Sonia Racy, revelou nessa quarta-feira, 6, o teor de depoimento dado por Paula ao Ministério Público. Ela disse que Ronilson Bezerra Rodrigues, Eduardo Horle Barcellos e Luis Alexandre Cardoso Magalhães - acusados de fraude na cobrança de ISS - deram apoio financeiro para a campanha de Donato a vereador. Posteriormente, Rodrigues procurou Donato e o vereador Paulo Fiorilo (PT) quando soube que era investigado pela Controladoria-Geral do Município (CGM).

"Não vamos nos enganar. Tanto o caso de Vanessa (Alcântara, ex-companheira de Magalhães) como o de Paula são do núcleo da quadrilha", disse Haddad. Segundo ele, os "agregados também têm interesse em tumultuar o processo". "O caso da Paula é mais grave, porque ela era chefe do gabinete do ex-secretário de Finanças (Mauro Ricardo) e tem uma relação de muita proximidade com o Ronilson (Rodrigues)", afirmou. Paula não foi localizada nessa quarta.

A frase do prefeito difere do que foi dito no fim da tarde pelo promotor Roberto Bodini, que investiga a quadrilha. "A Paula é testemunha no meu procedimento. Ela sempre foi e está sendo tratada como testemunha. Não existe qualquer acusação formal, qualquer fato imputado a Paula Sayuri que a coloque como investigada", disse.

A Prefeitura informa que a decisão de exonerá-la foi tomada após o andamento da investigação e ela não compareceu ao trabalho nesta semana. Paula trabalhou com Rodrigues no Departamento de Arrecadação e Cobrança (Decar) e com Fabio Remesso, que posteriormente foi colega dela na SMADS sob indicação de Nelo Rodolfo (PMDB). A servidora também afirmou que Rodrigues frequentava a Câmara Municipal de duas a três vezes por semana. A reportagem apurou que Rodrigues costumava receber dos vereadores listas de entidades que precisavam de isenção de IPTU. Paula trabalhou no setor responsável por resolver o assunto.

Certa vez, segundo o depoimento, Rodrigues prestou um favor a um homem conhecido como Nino, do PV, em uma defesa no Conselho Municipal de Tributos. Paula não soube dizer se ele cobrou pela ajuda.

A ela, Rodrigues teria admitido que "não era santo". Paula chegou a vê-lo com R$ 20 mil em dinheiro vivo, mas nunca teria sido informada de detalhes do esquema de corrupção. Ela contou que Rodrigues se disse indignado com a investigação, pois seu patrimônio era "só" de R$ 3 milhões. Depois, admitiu ter patrimônio de R$ 15 milhões.

Auditores. Os outros dois exonerados trabalhavam na Secretaria Municipal de Finanças. Moacir Fernando Reis, um dos investigados, tem uma empresa em sociedade com Adli Tatto, mulher do secretário municipal de Transportes, Jilmar Tatto. Questionado sobre o assunto, Tatto afirmou que o vínculo com Reis é apenas social. "Ele é namorado da minha cunhada. Eles abriram uma microempresa conjunta em 2010 e essa empresa não vingou. Ela faliu antes de começar. Então, não teve movimentação nenhuma."

Investigado por enriquecimento ilícito, Arnaldo Augusto foi secretário de Planejamento de Santo André entre 2009 e 2012, na gestão do ex-prefeito Aidan Ravin (PTB). Em 2009, levou Rodrigues para ser secretário adjunto.

A Prefeitura afirma que os auditores investigados poderão ser demitidos após processo administrativo.

Briga política. O diretório municipal petista criticou nessa quarta as suspeitas levantadas contra Donato. Em nota, o PT também afirma que o ex-secretário de Finanças Mauro Ricardo é conhecido como "homem forte de José Serra" e seus subordinados próximos, como Paula e Rodrigues, são responsáveis pelo desvio do ISS.

O presidente do diretório municipal do PSDB em São Paulo, Milton Flávio, afirmou que a legenda adversária está tentando "transferir responsabilidades" ao levantar o nome do ex-secretário Mauro Ricardo. Ele defendeu a renúncia de Donato da secretaria para dar "credibilidade às investigações". "Nesse momento, eles têm de responder e se explicar. A bola está com o PT", disse. / COLABORARAM CAIO DO VALLE, MÔNICA REOLOM, FELIPE TAU e LUÍSA ROIG MARTINS, ESPECIAL PARA O ESTADO

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