Márcio Fernandes/Estadão
Márcio Fernandes/Estadão

Fiscal diz que se ligou a Kassab em 2004

Em conversa gravada, Ronilson Rodrigues afirma que voltou à Prefeitura em 2009, a pedido de secretário que frequentaria 'ninho'

O Estado de S.Paulo

16 Novembro 2013 | 02h06

O auditor fiscal Ronilson Bezerra Rodrigues disse em uma conversa gravada com outros dois acusados de desviar impostos em São Paulo que passou a integrar o grupo político de Gilberto Kassab (PSD) nas eleições municipais de 2004, quando o ex-prefeito foi eleito vice na chapa de José Serra (PSDB). Em 2006, o tucano deixou o cargo para disputar o governo paulista e Kassab assumiu a Prefeitura.

No diálogo, ao qual o Estado teve acesso, Rodrigues relata o episódio na mesa de um bar no Tatuapé, na zona leste, para os fiscais Luis Alexandre Cardoso Magalhães e Carlos Augusto di Lallo Leite do Amaral, acusados de integrar a quadrilha. Ele diz aos colegas que não seria capaz de trai-los.

Rodrigues afirma que ele e o auditor Arnaldo Augusto Pereira, também investigado por enriquecimento ilícito, foram apresentados ao comitê da campanha de José Serra na Vila Mariana, zona sul, por um homem que havia coordenado na década de 1990 a campanha de Kassab a vereador na zona leste.

"Ele apresenta nós (sic) para o comitê da Vila Mariana e o Kassab põe nós dois (Rodrigues e Pereira) junto com um cara que fazia a campanha do Serra em 2004: o Felipe Soutello. Fizemos uma reunião e falamos das ações", disse Rodrigues. "Quando o Serra assume, só o Arnaldo ganhou cargo", afirmou.

Apontado como chefe da quadrilha acusada de desfalcar a Prefeitura em R$ 500 milhões, Rodrigues relatou ainda que seguiu para Santo André com Pereira, que havia sido nomeado em 2009 secretário de Planejamento de Aidan Ravin (PTB), então prefeito da cidade. E disse que só voltou à capital a pedido de Walter Aluisio Morais Rodrigues, secretário municipal de Finanças entre 2008 e 2011, na gestão Kassab.

"Eu não ia para Santo André (mas foi por fidelidade a Pereira). Em quatro meses o Walter me liga para retornar como subsecretário. Eu nunca traí ninguém. Isso não é da minha índole", desabafou Rodrigues. Magalhães gravou a conversa.

Conforme o Estado revelou ontem, Walter Aluisio frequentava o escritório alugado pela quadrilha no centro da capital, chamado de "ninho", segundo o depoimento de uma testemunha protegida pelo Ministério Público Estadual (MPE), dado em 6 de novembro. Ela também disse que o secretário adjunto à época, Silvio Dias, frequentava o lugar. Por fim, afirmou que havia troca de favores entre Rodrigues e a dupla.

Em um telefonema gravado pelo Ministério Público, Rodrigues reclama à auditora Paula Sayuri Nagamati que estava sendo investigado pela Controladoria-Geral do Município e afirma que "o secretário e o prefeito com quem trabalhei" também deveriam prestar esclarecimentos porque "tinham ciência de tudo".

A assessoria de Kassab foi procurada, mas ele não quis se manifestar. O ex-prefeito já disse que as afirmações contra ele são "falsas". Walter Aluisio e Silvio Dias não foram localizados ontem pela reportagem.

Vereadores. Foi a mesma testemunha que incluiu os vereadores Nelo Rodolfo (PMDB) e Paulo Fiorilo (PT) na lista de parlamentares que receberiam dinheiro da quadrilha, conforme o Estado revelou. Os outros são Aurélio Miguel (PR) e Antonio Donato (PT), que deixou o governo Haddad após as denúncias. Ambos negam os fatos.

Fiorilo voltou a afirmar que conhecia Rodrigues, mas nunca recebeu "recursos dos servidores investigados para sua campanha, conforme pode ser observado na prestação de contas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE)". Já a assessoria de Imprensa de Rodolfo informou que "todas as doações à sua campanha foram declaradas à Justiça Eleitoral, que aprovou as contas sem ressalvas". / ARTUR RODRIGUES, BRUNO RIBEIRO, DIEGO ZANCHETTA e FABIO LEITE

CRONOLOGIA

Caso motivou saída de Donato

30 de outubro

Quatro suspeitos de operar esquema de propina relacionado ao cálculo do ISS são presos. Luis Magalhães firma acordo de delação premiada.

1º de novembro

O Estado revela que os pagamentos eram feitos em dinheiro, no 11.º andar da Prefeitura. Só 10% do ISS devido era recolhido aos cofres públicos.

3 de novembro

Transcrições obtidas pelo Estado mostram que Ronilson Bezerra Rodrigues procurou o então secretário Antonio Donato (PT).

6 de novembro

A coluna Direto da Fonte informa que, em depoimento ao MP, a fiscal Paula Sayuri afirmou que Antonio Donato recebeu dinheiro do esquema.

11 de novembro

Estado adianta que quatro vereadores são citados na fraude: Aurélio Miguel (PR), Donato (PT), Paulo Fiorilo (PT) e Nelo

Rodolfo (PMDB).

13 de novembro

Donato deixa a Secretaria de Governo, no dia em que novamente é citado por fiscais.

14 de novembro

Barcellos diz ao Ministério Público Estadual (MPE) que tanto sua permanência quanto a do fiscal Ronilson Bezerra Rodrigues na gestão Fernando Haddad (PT) foram uma recompensa pelas remessas de dinheiro feitas ao então vereador Antonio Donato, ex-secretário de Governo. Ele também afirmou que Rodrigues fazia pagamentos ao vereador Aurélio Miguel (PR).

15 de novembroUma testemunha do MPE afirma que o núcleo da Secretaria Municipal de Finanças da gestão de Gilberto Kassab (PSD) frequentava o escritório mantido pela quadrilha de fiscais apelidado de "ninho da corrupção". O depoimento revela a ligação do líder do grupo, Ronilson Bezerra Rodrigues, com o ex-secretário Walter Aluísio Morais Rodrigues, e seu adjunto, Silvio Dias.

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