''Fiquei lembrando meus amigos mortos. Não consegui dormir''

Alguns pais levaram filhos para buscar material, mas houve quem ficasse sem reação diante dos portões

Bruno Boghossian / RIO, O Estado de S.Paulo

09 de abril de 2011 | 00h00

Eduardo Moraes da Silva caiu no choro e ficou sem fôlego ao caminhar diante da escola em que estuda, e onde o irmão, Igor, havia sido assassinado. Pela primeira vez, o menino de 11 anos foi ao local do massacre, lembrando os sons dos tiros, o refúgio encontrado debaixo da mesa, as crianças feridas nos corredores e a correria em direção ao portão de saída. Como outras crianças e parentes das vítimas do atirador, Eduardo ainda tem dificuldades para tentar superar o trauma provocado pela morte do irmão. "Eu só soube hoje (ontem) que ele morreu", disse, soluçando diante do portão da Tasso da Silveira.

Angustiados, muitos estudantes ainda resistem à ideia de voltar a estudar no local em que seus colegas morreram. Depois de ter visto marcas de sangue no chão e na parede da escola, Taiane de Paula, de 12 anos, não conseguiu dormir na primeira noite após o massacre. "Fiquei lembrando que meus amigos estava mortos, lembrei do corpo do atirador morto no chão... Não consegui dormir nem um pouco", contou a menina, que preferiu não ir ao enterro dos colegas. "Não volto mais para essa escola. Não vou conseguir entrar nem para buscar minha mochila, que ficou lá depois que eu fugi."

Alguns pais levaram os filhos até o colégio na manhã de ontem para recuperar os pertences que ficaram para trás e homenagear as vítimas. Muitas crianças ficavam sem reação quando paravam diante dos portões do colégio. "Tive de dormir agarrado com meu pai, porque tinha visto coisas horríveis", lembrou o aluno Felipe Gonçalves, de 12 anos.

Cruzes. Amigos das crianças mortas e moradores de Realengo prestaram homenagens às vítimas durante todo o dia. Centenas de flores, 12 cruzes de madeira e cartas escritas para os colegas foram colocadas diante de folhas de papel com os nomes dos jovens, coladas no muro da escola. Estudantes de outros colégios da região também ficaram comovidos com o crime. Em uma das turmas da escola Frei Veloso, a 1 km do local do massacre, apenas dois dos 25 alunos assistiram às aulas de ontem. "Muitos ficaram apavorados", disse a professora Rosana Monsores, que levou flores para as vítimas.

Abalados. Pedro Costa, de 12 anos, e Daniel Braga, de 14, também não foram à aula ontem, em outro colégio de Realengo. Os dois estiveram diante da escola em que aconteceu o crime para deixar um bilhete diante do nome do amigo Igor, com quem jogavam futebol. "Igor, aqui embaixo todos nós estamos tristes. Descanse em paz. Você deixou muitas saudades. Ass: Amigos."

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