'Fiquei igual detenta', diz vendedora de acarajés

Na periferia da capital, não havia nem transporte público; com medo, houve quem proibisse os filhos até de ir à praia

SALVADOR, O Estado de S.Paulo

12 de fevereiro de 2012 | 03h01

No geral consagrada pelo seu espírito festivo, a população baiana se tornou silenciosa, e "caseira", às vésperas do carnaval deste ano. Para quem mora em bairros mais distantes, onde não havia nem ônibus, o medo surgido nos 12 dias que duraram a paralisação da polícia resultou em dezenas de famílias trancadas dentro de casas e prédios.

Sem poder levar os dois filhos pequenos à creche e sem clientes para seus acarajés, Cristina Silva, de 34 anos, passou a semana "igual detenta", como ela mesmo diz. No bairro onde mora, na periferia de Salvador, a comerciante também não tinha coragem nem para ir ao caixa eletrônico pagar a conta de luz, que atrasou quatro dias.

Mesmo que ela quisesse sair para tomar cerveja com as amigas na Praia do Rio Vermelho, como faz todas as terças-feiras, os ônibus ficaram sem passar no ponto de sua rua até quinta-feira à noite. Cristina vende acarajés no centro histórico de Salvador há 20 anos, na barraca que herdou da mãe. Só na sexta-feira à tarde ela voltou a trabalhar, quando soube que viaturas da PM tinham voltado a circular em um dos cartões-postais mais famosos do País. "Esse mal-estar geral contaminou as pessoas. A cidade já é violenta no dia a dia, as pessoas já andam com medo. Sem polícia, essa tensão, que já era comum, virou uma paranoia na cabeça do povo", acredita.

Surfistas. Só quem deu um jeitinho para não mudar a rotina, na semana em que Salvador parou, foram os jovens surfistas da elite baiana. Mas nem tanto.

Ao lado de outros quatro colegas, o estudante de Medicina Thiago Tavares Brito, de 19 anos, contou que o grupo passou a usar pranchas mais velhas, com medo de assaltos na Praia da Pituba. Eles também pararam de usar relógios. "Já tinha roubo de prancha direto com a PM. Agora, sem polícia, o negócio é só usar prancha velha", argumenta Brito.

Ele diz que vários outros amigos de faculdade não pegaram onda na semana inteira da greve. "Minha mãe também não queria que eu viesse na praia com essa violência toda. Mas falei que ninguém vai querer levar uma prancha tão velha como a minha", contou o estudante, morador em um condomínio fechado na Praia do Flamengo. /D.Z.

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