Fins de papo

Ainda que seja a última coisa que eu faça, estou mergulhado num livro farto em últimas palavras de gente famosa. Vou avisando: não se trata de uma Caras terminal (uma Esgares, algo assim). É obra douta e séria, mais que isso, francesa, ao largo de frivolidade ou voyeurismo.

HUMBERTO WERNECK, O Estado de S.Paulo

28 Outubro 2012 | 14h00

Mortes imaginárias, de Michel Schneider, é bem mais que uma coletânea de frases exaladas in extremis por grandes escritores - de Stendhal a Truman Capote, de Rilke a Nabokov. Mas confesso que o que me pega, até o ponto da leitura em que me encontro, é o lance das últimas palavras - pérolas pré-fúnebres que me senti tentado a ir catar também no balaio menos rigoroso do Google.

Palavras como as de Laurence Sterne, o autor de Tristam Shandy, que ao sentir a aproximação da morte não se equivocou: "Agora sim. Ela chegou." Ou as do francês Léon-Paul Fargue, que não quis delongas: "Depressa! Depressa!" Ou, ainda, do poeta Byron, outro que não opôs resistência à Indesejada das Gentes - e até liquidou seu estoque de pontos de exclamação: "Morrer! Dormir! Finalmente dormirei!" Timothy Leary, exemplo de rebeldia, entregou os pontos ao constatar que na órbita vazia da caveira lhe piscava um olho: "Por que não?"

"Não, não", esperneou Emily Brontë diante de ventos mais que nunca uivantes. "O horror, o horror!", arrepiou-se Joseph Conrad ao pressentir o verdadeiro coração das trevas. Aos 80 anos, Anatole France pediu colo: "Mamãe, mamãe!". Dono de escrita para muitos impenetrável, James Joyce exasperou-se: "Será que ninguém entende?". E o pai da psicanálise, no divã da morte, deu sinais de estar diante de algo que nem Sigmund Freud explicava: "Isso é um absurdo!

Estilista, Henry James não deixou de fazer texto no instante derradeiro: "Eis, finalmente, a coisa admirável". O inconformista André Gide mansamente se deixou levar: "Está bem". Ou terá dito "Não é nada", como dão conta testemunhas de seu passamento? Quando se trata de últimas palavras, nem sempre batem as informações. Segundo São João, Cristo se entregou ao Pai com um lacônico "Está consumado", mas o não menos santo e evangelista Lucas registrou arremate mais elaborado: "Pai, em Tuas mãos entrego o meu espírito." Também no caso de Rabelais há controvérsias: uns dizem que o escritor francês foi teatral na despedida - "Fechem as cortinas, a farsa acabou" -, mas há quem assevere ter o criador dos gigantes Gargântua e Pantagruel anunciado a intenção de ir "em busca de um Grande Talvez", seja lá o que for isso.

Aqui e ali, há que suspeitar de mão alheia no embalsamamento das últimas palavras, no afã de melhorá-las - com o risco de trair o estilo ou a filosofia do finado. Bem obrou Getúlio Vargas ao declarar por escrito que deixava a vida para entrar na História. Difícil crer, em todo caso, que Voltaire tenha encerrado seus dias com semelhante retórica: "Por todo o dinheiro da Europa, não quero ver mais um incrédulo morrer!"

A julgar por depoimentos de quem lá chegou, na hora do vamos ver a coisa em mais de um sentido fica preta. "Eu vejo uma luz negra", fez saber Victor Hugo. O historiador inglês Edward Gibbon revelou que "tudo é escuro e duvidoso" - razão pela qual o alemão Goethe clamou por "mais luz". Foi o que pediu também - "Acenda as luzes, não quero ir para casa no escuro" - o contista americano O. Henry. Mas Thomas Edison, o inventor da lâmpada elétrica incandescente, mesmo sem ela gostou do que viu: "É muito lindo ali", sussurrou. Thomas Hobbes, o filósofo inglês, experimentou sensação de abismo: "Estou diante de um terrível salto nas trevas" - escuridão pela qual seu colega David Hume terá ansiado, pois há indícios de que foi parar em lugar pior: "Estou nas chamas!", gritou ele.

Arrependido da luxúria a que escancaradamente se entregara, ou querendo mais, o papa Alexandre VI pediu tempo ao ver chegar a dama de alfanje em punho: "Espere um momento..." É o que pede também este cronista, pois sobre o assunto não serão estas as suas últimas palavras. Tem mais para a semana que vem.

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