Fim do Playcenter é registrado por 'órfãos do parque'

Admiradores do estabelecimento da Barra Funda fechado em julho acompanham a desmontagem das atrações e investigam para onde vão

TIAGO QUEIROZ, O Estado de S.Paulo

05 Outubro 2012 | 03h04

Ao redor do terreno do Playcenter, na Barra Funda, zona oeste de São Paulo, de vez em quando aparecem caminhões tirando brinquedos desmontados após o fechamento do parque, no dia 29 de julho. E quase todo dia há alguém espreitando pelos muros e olhando pelas frestas, tirando foto e analisando com cuidado o que foi mexido. Esses "fiscais", no entanto, não estão lá a serviço do parque ou da Prefeitura. Eles são "playmaníacos", fãs do parque de diversões, e fazem registros de seus últimos dias.

Douglas Gregório, de 25 anos, Nathalia Camargo, de 23, e Wesley Oliveira, o Well, de 26, são playmaníacos. Oliveira perambula pelo menos duas vezes por semana ao redor do parque. Sempre que vai lá, dá uma volta completa no terreno. Vê através das grades e se estica onde o muro é mais baixo para ter uma visão melhor. É um "repórter investigativo" do futuro dos brinquedos, ou "rides".

Morador da Casa Verde, na zona norte, ele ainda se emociona com o fechamento do parque. "Não sei se é lenda, mas minha mãe conta que quando estava grávida de mim, andou no Colossus", uma das montanhas-russas do Playcenter. Na mochila, o rapaz tem itens de colecionador: Passaportes da Alegria de diversas épocas e até o disco A Bandinha do Playcenter, de 1976, raridade garimpada em um sebo.

Gregório, que mora em Carapicuíba, na Grande São Paulo, foi tantas vezes ao Playcenter que uma vez seus parentes perguntaram por que ele não tentava trabalhar lá. Gostou da ideia. Fez cursos, conseguiu o emprego de operador de brinquedos e trabalhou no parque de 2009 a 2012.

Atrações. As informações escassas sobre o destino das principais atrações do parque não impediram Oliveira de descobrir que o Waimea, espécie de tobogã que arremessa um barco em um lago artificial, foi comprado pelo Mirabilandia, um parque de diversões de Olinda, em Pernambuco. Em 31 de agosto, em uma de suas incursões ao Playcenter, ele fotografou pelas frestas de um portão um caminhão com o logotipo do Mirabilandia. Na mesma tarde, postou a descoberta no grupo de fãs do Playcenter do Facebook. Poucos dias depois, o Mirabilandia confirmou que comprou o "ride".

O coordenador de Marketing do Mirabilandia, Fernando Veras, diz que a principal vantagem de comprar o brinquedo do Playcenter foi evitar os impostos de importação que, segundo ele, são muito altos. "Agora, esperamos que os fãs de São Paulo também visitem nosso parque."

Algumas atrações infantis, como o Frog Hopper, o Fire Chief, o Crazy Horse, o Rio Grande e até um carrinho de pipoca estão na Cidade de Criança, em São Bernardo do Campo, no ABC paulista. A descoberta foi feita por Iara Gomes, de 17 anos, outra "investigadora".

O grande temor dos fãs é que os rides sejam vendidos para fora do Brasil, como a montanha-russa Boomerang. Ela vai para o Parque Diverciones, na Costa Rica. "Sabemos que o Playcenter era um ícone no Brasil e em São Paulo, mas nossos frequentadores estão entusiasmados com a inauguração do 'Bumerán'", disse Lizzet Lureña, representante do Diverciones.

Procurado, o responsável pelo Playcenter, Roger Ely, disse que uma coisa é certa: nenhum brinquedo será vendido para ferro-velho. Ele não informou, no entanto, para quais outros parques as atrações seriam levadas.

Enquanto tentam descobrir o paradeiro dos brinquedos e relembram bons momentos no parque, os playmaníacos frequentam o Marisa, parque de diversões de Itaquera, na zona leste, bem menor do que o da Barra Funda, e que funciona apenas nos fins de semana e feriados. E aproveitam para tirar fotos das últimas gárgulas que ainda sobraram do Castelo dos Horrores. / COLABOROU JULIANA DEODORO

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.