Filosofia de borracharia

O borracheiro coçou a desmatada cabeça e proferiu a sentença tranquilizadora: nenhum problema com o nosso pneu, aliás quase tão calvo quanto ele. Estava apenas (também como ele) um bocado murcho.

HUMBERTO WERNECK, O Estado de S.Paulo

19 Fevereiro 2011 | 00h00

- Camminando si sgonfia - explicou o camarada, com um sorriso de pouquíssimos dentes e enorme simpatia.

O italiano vem a ser um dos muitos idiomas em que minha abrangente ignorância é especializada, mas ainda assim compreendi que o pneu do nosso periclitante Opel tinha se esvaziado ao longo de tanta estrada. Não era para menos. Tendo saído de Paris, havíamos rodado muito antes de cair, num fim de tarde, naquele emaranhado de fronteiras em que você corre o risco de não saber se está na Áustria, na Suíça ou na Itália, quando na realidade acaba de entrar em Liechtenstein. Mas não, aquilo não tinha cara de Liechtenstein, seja lá o que for isso; estávamos no norte, no sótão da Itália, vendo um providencial borracheiro dar nova carga a um sgonfiato pneu.

Dali saímos - éramos dois jovens casais num já distante verão europeu, embarcados numa aventura que, de camping em camping, nos levaria a Istambul - para dar carga nova também a nossos estômagos, àquela altura não menos sgonfiati. O que pode a fome, em especial na juventude: à beira de um himalaia de sofrível espaguete fumegante, julguei ver fumaças filosóficas na sentença do tosco borracheiro. E, entre garfadas, sob o olhar zombeteiro dos companheiros de viagem, me pus a teorizar.

Sim, camminando si sgonfia, e não apenas quando se é, nesta vida, um pneu. Também nós, de tanto rodar, vamos aos poucos desinflando. E por aí fui, inflado e inflamado, num papo delirante, enquanto dávamos cabo daquele macarrão macarrônico. Fosse hoje, talvez tivesse dito, infelizmente com conhecimento de causa, que a partir de determinado ponto carecemos todos, machos e fêmeas, de algo como um viagra não setorizado, quer dizer, válido para o corpo inteiro, quem sabe para a alma.

O espaguete tendo chegado ao fim, a conversa pegou, e alguém na mesa, dando novo alcance à bobajada, ponderou que camminando não apenas si sgonfia como, mais frequentemente, si gonfia. De fato. Declarava outro dia uma figura no Facebook (pela foto, uma jovem ainda não outoniça, embora já não primaveril), depois de revelar que seu corpo se tornara objeto do tal efeito sanfona: esticado e comprimido pelas extremidades, dele brotaria uma sanfônica trilha de forró.

Na época, os quatro ainda na faixa dos 20 anos, os dois fenômenos - inflação e deflação corporal - não nos diziam respeito, a não ser no plano teórico: os outros, não nós, murchavam e engordavam. Um pouco como a morte, evento na juventude tão remoto que chega a parecer improvável: mesmo quando colhe alguém nas proximidades, não é bem uma questão pessoal, como mais tarde será: por ora, só os outros morrem.

Com um rabo de olho na foto acima, você pode dizer que eu deveria, corajosa e humildemente, encarar o espelho, em vez de ficar reparando nos outros. Nem se discute. Mas a gente sabe como é: pelo mesmo mecanismo que nos leva a ir empurrando para adiante o momento em que seremos inapelavelmente velhos, com o avançar do tempo uma certa autocomplacência visual nos faz acreditar que não estamos assim tão acabados - pelo menos não tanto quanto a maioria de nossos contemporâneos.

Foi o que pensei quando, algum tempo atrás, no Rio de Janeiro, topei com o companheiro daquela viagem a Istambul. Por ironia, num velório em São João Batista. Fazia mais de 30 anos que não nos víamos e um dos assuntos, fatalmente, foi a lembrança de nossa aventura rodoviária. Cada qual, não tenho dúvida, leu na carcaça alheia as marcas do esmeril do tempo. Cada qual, igualmente, terá concluído com mesquinha alegria que se encontrava em melhor estado de conservação que o outro. Não se falou no personagem, mas me veio à mente o borracheiro italiano. Sim, camminando si sgonfia. No caso do meu amigo, mesquinharia à parte, havia uma deplorável acumulação de funções: num aparente paradoxo, ele tinha murchado e engordado.

Você ainda não chegou lá, mas sabe do que estou falando.

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