Filme traz à tona tema tabu entre famílias japonesas

'Corações Sujos' mostra atuação da Shindo Renmei, organização nacionalista radical acusada de assassinatos logo após a 2ª Guerra

EDISON VEIGA, ROBERTO ALEXANDRE, ESPECIAL PARA O ESTADO, VALPARAÍSO, MIRANDÓPOLIS (SP), O Estado de S.Paulo

12 Agosto 2012 | 03h03

"Depois da Segunda Guerra Mundial, de 80% a 90% dos imigrantes japoneses que viviam no Brasil não acreditavam que o Japão tinha perdido." A afirmação, da historiadora e jornalista Célia Oi - ex-diretora do Museu Histórico da Imigração Japonesa e atual coordenadora de Comunicação da Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e de Assistência Social Bunkyo -, ajuda a entender um pouco do que foi o fim da década de 1940 para a comunidade nipo-brasileira.

Esse é o contexto retratado no filme Corações Sujos, dirigido pelo cineasta Vicente Amorim, com lançamento previsto para o dia 17. Com base no livro homônimo de Fernando Morais, publicado em 2000, o longa-metragem conta a história da Shindo Renmei (Liga do Caminho dos Súditos), um movimento radical nacionalista surgido no interior paulista, que matava os "traidores" do Japão, ou seja, aqueles japoneses que acreditavam nas notícias da derrota na 2ª Guerra.

Calcula-se que a associação tenha executado 23 pessoas e ferido outras 147. "Mas é preciso analisar com cuidado esses números", diz Célia. "Há quem duvide da veracidade das estatísticas da polícia da época." Superado o episódio histórico, a maioria dos japoneses que participaram do movimento escolheu o silêncio. Por isso, a professora de História Elaine Mieko Kubo Ferreira, de 39 anos, só descobriu que o avô havia sido um dos principais líderes da Shindo Renmei há 11 anos. "Foi um choque para mim e, sinceramente, até hoje não tenho opinião formada sobre o assunto. É um misto de orgulho e receio", diz ela, que mora em Valparaíso, a 560 km de São Paulo.

Seu avô, Shigueru Kubo, é citado no livro de Morais. Ele teria sido um dos financiadores do grupo e cumpriu pena na cidade no fim dos anos 1940. Morreu em 1988, aos 72 anos. "Lembro de meu avô, das histórias que ele contava do Japão, mas esse assunto nunca chegou até a minha geração", relata. A professora só descobriu o passado de seu avô quando foi procurada por historiadores na época em que foi encontrado, na zona rural, um antigo esconderijo do grupo (leia abaixo).

Receio. O próprio escritor Fernando Morais encontrou resistência ao abordar o assunto com japoneses e descendentes entre 1998 e 2000. "À primeira vista, eles reagiram mal. Davam desculpas, diziam que não sabiam português. Então eu apareci com um intérprete."

Morais lembra de uma passagem curiosa. Quando perguntou a um ex-integrante do movimento quem ele achava que tinha vencido a guerra, foi questionado sobre as marcas da câmera fotográfica, do laptop e do gravador que usava - todos produtos japoneses. "Aí ele completou: 'E então? Quem você acha que ganhou?"

Apesar da resistência, o escritor conta que nenhum de seus entrevistados demonstrou arrependimento ou culpa. "Houve um (integrante) que me disse que, quando um japonês trai o imperador, deixa de ser japonês. Vira nada, pior que cachorro. Então tem de ser morto", conta.

O tema Shindo Renmei também é tabu naquela que pode ser considerada a comunidade japonesa mais fechada do Brasil: a Yuba, fundada há 77 anos e localizada na zona rural de Mirandópolis, a 600 km de São Paulo.

Issamu Yazaki, ator que vive Aoki em Corações Sujos, trabalha como motorista de caminhão na comunidade. E garante que não pretende abandonar a vida que leva para se tornar ator de cinema - prefere continuar se apresentando em pequenas peças teatrais da Yuba, para difundir a cultura nipônica. "Não quero deixar isso. Minha vida está aqui", diz, com orgulho. Em Yuba, onde vivem cerca de 20 famílias, ninguém gosta de falar sobre a Shindo Renmei. O ator-motorista diz que, já naquela época, os moradores ficaram distantes do movimento. "Os mais velhos não tiveram contato com esse grupo."

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