Filhos com DNA de 3 pais

Em breve, o Reino Unido pode se tornar o primeiro país a autorizar o nascimento de crianças com material genético de três pais distintos. A técnica, aprovada pela Câmara dos Comuns na última semana, deve facilitar a vida das mulheres que enfrentam problemas nas mitocôndrias, espécie de usinas de energia das nossas células, com DNA que é transmitido para os filhos. Aliás, todo o DNA mitocondrial é herdado sempre por meio da linhagem materna.

Jairo Bouer, O Estado de S.Paulo

08 Fevereiro 2015 | 02h04

A técnica é relativamente simples: suponha que um pai e uma mãe queiram ter um filho e recorram à fertilização in vitro. O pai fornece seus espermatozoides e a mãe, seus óvulos. Os cientistas promovem a união dos gametas e, depois, implantam o embrião no útero da mãe. Agora imagine que essa mãe tem um risco elevado de uma doença genética, como a distrofia muscular, que é causada por um problema nas mitocôndrias. Pode-se retirar apenas o núcleo do embrião (com material genético do pai e da mãe) e inseri-lo em um óvulo de uma doadora. Esse óvulo (sem seu núcleo original) carrega as mitocôndrias saudáveis.

Essas mitocôndrias da doadora é que vão ser transmitidas para todas as linhagens de células do embrião, que vão se desenvolver a partir de então, evitando assim a doença genética que ele possivelmente enfrentaria. Depois da transferência do núcleo com DNA dos pais para o óvulo da doadora, o embrião é implantado no útero da mãe original. Assim, a criança vai ter todas as características genéticas herdadas de pai e mãe, mas as mitocôndrias serão provenientes da célula da doadora. Por isso o DNA de três pais distintos.

Mutações no DNA das mitocôndrias têm sido relacionadas a uma série de doenças degenerativas. Com as mutações, as mitocôndrias podem deixar de fornecer energia às células de forma adequada e gerar problemas de saúde. Estima-se que uma em cada 6.500 crianças vai enfrentar esse tipo de doença. O DNA das mitocôndrias responde por 0,05% de todo nosso material genético e não tem nenhuma relação com nossas características físicas.

Só por curiosidade, do ponto de vista da origem das mitocôndrias, uma das teorias mais aceitas hoje em dia propõe que há bilhões de anos elas eram microrganismos livres (como bactérias primitivas), que foram englobados por células ainda sem núcleo e passaram a coexistir dentro delas em uma espécie de endosimbiose (processo biológico em que as partes envolvidas têm benefícios com a união). A bactéria teria nutrientes disponíveis no citoplasma celular e proteção do ambiente interno da célula, enquanto a célula ganharia uma usina muito mais eficiente de produção de energia. A união foi tão frutífera que persiste até hoje nos seres vivos (os vírus são exceção).

Para a técnica ser oficialmente aprovada no Reino Unido, a Câmara Alta (equivalente ao nosso Senado) deve ratificar a medida até o final deste mês. Assim, já no próximo ano é possível que nasçam as primeiras crianças com material genético de três pais. Não são apenas essas crianças que vão ter benefícios, mas também seus filhos e netos, já que as mitocôndrias saudáveis serão transmitidas para as próximas gerações.

É PSIQUIATRA

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