Alex Silva/Estadão
Homenageado em monumento no Arouche, Luiz Gama foi advogado, escritor, jornalista, figura política de destaque e abolicionista Alex Silva/Estadão

Figura essencial do século 19, Luiz Gama é redescoberto pelas novas gerações

Advogado, escritor, jornalista, abolicionista e intelectual, ele acaba de receber título de doutor honoris causa da USP; também é retratado em filme que estreia em agosto

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

11 de julho de 2021 | 05h00

"Jamais esta capital e quiçá muitas outras cidades do nosso País viram mais imponente e espontânea manifestação de dor e profunda saudade de uma população inteira para com um cidadão que tanto mais merecimento tivera", noticiava o Estadão (então Província de S. Paulo) sobre a morte de Luiz Gama, em 1882, descrito como um dos “nossos homens ilustres”, de "inquebrantável honestidade, lutas e sacrifícios".

O advogado, escritor, jornalista, intelectual, figura política influente e abolicionista voltou a ganhar destaque nos últimos anos, por gerações que o conheciam apenas por nome (ou nem isso). Agora, 139 anos depois de sua morte, está em um processo de resgate e revalorização por meio de pesquisas acadêmicas, livros, obras artísticas e homenagens. Para além do nome, a proposta é mostrar a história, as realizações, a obra e as ideias de uma figura fundamental da história brasileira.

Para pesquisadores, o abolicionista negro que libertou mais de 500 pessoas escravizadas está em um momento de “reparação histórica”. Em seis anos, foi oficialmente reconhecido como advogado (pela OAB, em 2015), herói da pátria (2018, no Livro de Heróis e Heroínas da Pátria, após publicação de lei federal), como jornalista (pelo Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, em 2018) e como intelectual, ao ser o primeiro brasileiro negro a receber o título de doutor honoris causa da USP —concedido há pouca mais de uma semana.

Gama terá a obra completa publicada em uma coleção pela primeira vez, até dezembro de 2022 e em 10 volumes, segundo a editora Hedra. Com organização do pesquisador Bruno R. de Lima, serão cerca de 750 textos, dos quais a editora diz que mais de 80% são inéditos, entre poesia, sátira, crônica, escritos de intervenção política, literatura jurídica e, principalmente, artigos abolicionistas. Além disso, é retratado em um filme com estreia marcada para o mês que vem.

O novo título de doutor honoris causa tem ainda a simbologia de ser entregue pela universidade que hoje é integrada pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, na qual o advogado nunca foi admitido como estudante, embora tenha frequentado de outras formas. É o que diz o professor de Jornalismo da USP, Dennis de Oliveira, um dos idealizadores da proposta e pesquisador do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre o Negro Brasileiro na mesma instituição.

“Ele era um intelectual  que circulou por diversas áreas, um intelectual autodidata e que atuava publicamente em prol de mudanças”, comenta o docente, que está com um projeto de criar uma cátedra acadêmica com o nome de Gama. “A ideia é fazer com que suas obras sejam mais conhecidas.”

Para ele, um dos motivos pelos quais o advogado passa por uma revalorização é o fortalecimento do movimento negro e o crescimento do número de estudantes e pesquisadores negros no ensino superior. Além disso, destaca, essa nova geração não só busca evidenciar a presença negra brasileira no campo intelectual, como expor que a abolição da escravatura envolveu a atuação efetiva dessa população (por meio de figuras como o próprio Gama, José do Patrocínio, André Rebouças e outras).

Parte desse resgate está ligado ao trabalho de Ligia Fonseca Ferreira, professora da Unifesp, pesquisadora da obra de Gama desde os anos 1990 e responsável por “Lições de Resistência - Artigos de Luiz Gama na Imprensa de São Paulo e do Rio de Janeiro” (de 2020) e “Com a Palavra Luiz Gama. Poemas, Artigos, Cartas, Máximas” (2011), dentre outros livros relacionados ao escritor. 

“Ele nunca foi totalmente desconhecido. Falava-se do abolicionista Luiz Gama, mas conhecia-se pouquíssimo dos seus textos. Houve não só um silenciamento, mas um apagamento”, descreve. “Eu queria encontrar a voz de Luiz Gama. Ele era um homem que tinha coisas a dizer, e usou todas as mídias do seu tempo”, completa. “Na época (que começou a estudar o tema), era quase impossível achar (textos escritos pelo autor)”, recorda-se. 

Ligia diz que o trabalho de Gama é ao mesmo tempo complexo e atual. “Era um observador mais do que atento ao modo de funcionar do Brasil. Desde o primeiro livro, denunciava a corrupção, as questões da educação, critica os maus jornalistas…”, resume.

Luiz Gama também ganhou espaço nas artes

Um garoto vendido ilegalmente pelo próprio pai, e que conseguiu retomar a própria liberdade anos depois. Um advogado autodidata que se tornou referência no País e utilizou das leis para garantir a libertação de escravizados. Um intelectual e formador de opinião que publicou nos principais jornais, enquanto também escrevia trovas e fazia charges. Um homem negro que se tornou uma das principais figuras públicas do século 19, em meio à presença ainda da escravidão. 

Um breve resumo como este da vida de Gama mostra o porquê do cineasta Jeferson De ter se questionado em 2014: “Depois de mais de 100 anos de cinema no Brasil, como ninguém filmou a história desse cara?” 

"Como a maior parte dos brasileiros, o diretor desconhecia totalmente a existência do Luiz Gama. Quando li as primeiras páginas do roteiro, fiquei admirado com a trajetória”, conta. O resultado é o filme Doutor Gama, com estreia prevista nos cinemas em agosto. 

A produção teve preocupação em manter-se fiel ao legado da figura histórica, aproximando-se de informações levantadas por pesquisadores, mas com algumas “liberdades artísticas”. “O cinema de ficção brasileiro raramente viu a contribuição intelectual negra. A gente traz a figura do Luiz Gama como sujeito dessa luta”, comenta o cineasta. 

À equipe, Jeferson costumava lembrar que todos tinham a responsabilidade de estar retratando a vida de um “súper herói”. “Gostaria muito que Doutor Gama fosse essa porta de entrada, para mergulhar na própria obra do Luiz Gama, que tenha essa provocação, que desperte curiosidade.”

No teatro, a trajetória da figura histórica chegou um pouco antes. A peça Luiz Gama: Uma Voz Pela Liberdade está no quinto ano de apresentações, majoritariamente no Rio. Na pandemia, é encenada pela internet. Na TV, por sua vez, o especial Falas Negras, da Globo, colocou Flavio Bauraqui na pele de Gama em novembro passado. 

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Trajetória de Luiz Gama está ligada ao centro de São Paulo; conheça pontos marcantes

Largo de São Francisco, Rua São Bento, Cemitério da Consolação e outros espaços da região central fizeram parte da história do advogado, escritor e líder abolicionista

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

11 de julho de 2021 | 05h00

Em tempos que muitos dos nomes mais influentes do País estavam no Rio, então capital federal, Luiz Gama entrou para a história do Brasil por uma trajetória majoritariamente vivida em São Paulo. Pouco daquela cidade ainda resta na paisagem urbana, mas alguns lugares paulistanos ainda guardam um pouco da memória do escritor, jornalista, advogado, abolicionista e homem de outros tantos ofícios ao longo do século 19 e que passa por um momento de revalorização.

Um desses lugares é o Largo de São Francisco. Negro, Gama não foi aceito como estudante formal da Faculdade de Direito, mas frequentou aulas como ouvinte e esteve presente em diversos momentos marcantes. Desde 2017, dá nome a uma sala da instituição.

Perto dali, na Rua São Bento, fundou, dirigiu e redigiu o semanário ilustrado O Polichinelo, em 1876, como destaca a pesquisadora Ligia Fonseca Ferreira. Era, contudo, na então Rua da Imperatriz, rebatizada de Rua XV de Novembro depois da Proclamação da República, que mantinha um escritório.

Gama não vivia muito longe do hoje centro velho. Sua residência ficava na então Rua do Brás, rebatizada décadas depois com o nome de outro abolicionista, tornando-se a Avenida Rangel Pestana.

Após o histórico cortejo de sua morte, que movimentou algumas milhares de pessoas e fez o comércio fechar mais cedo, foi enterrado no Cemitério da Consolação. O túmulo segue preservado no mesmo local e se tornou um ponto simbólico em caminhadas realizadas pelo movimento negro nas décadas seguintes.

No mesmo ano, deu nome à Rua Luiz Gama (também grafada como Luís Gama), no Cambuci, que liga a Avenida do Estado até a Rua dos Lavapés. Mais adiante, nos anos 1930, teve um monumento em sua homenagem instalado no Largo do Arouche, também na região central. O busto segue até hoje no local e é fruto de uma homenagem idealizada pelo movimento da época.

Fora do centro, dois espaços ligados a Gama em São Paulo são as Bibliotecas Brasiliana Mindlin e do Instituto de Estudos Brasileiros, ambas na USP. Segundo a pesquisadora Ligia Fonseca Ferreira, são as únicas do País a ter exemplares da primeira edição de Primeiras Trovas Burlescas, primeiro livro do autor, de 1859.

 

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Leia artigo de Luiz Gama publicado há mais de 140 anos nas páginas do Estadão

Texto é datado de 18 de dezembro de 1880, menos de dois anos antes da morte do escritor, advogado, jornalista, abolicionista e figura política influente

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

11 de julho de 2021 | 05h00

A pesquisadora Lígia Fonseca Ferreira indicou ao Estadão um dos artigos mais marcantes escritos por Luiz Gama e publicados nas páginas do jornal, então chamado de A Província de S. Paulo. O texto é datado de 18 de dezembro de 1880, menos de dois anos antes da morte do escritor, advogado, jornalista, abolicionista e figura política influente, nome essencial da história brasileira e que passa por um momento de revalorização.

“É uma análise racional e, também, cheia de ironia. Ele era super reconhecido naquele momento", descreve. O artigo também integra o livro “Lições de Resistência - Artigos de Luiz Gama na Imprensa de São Paulo e do Rio de Janeiro” (de 2020, da Edições Sesc SP), organizado por Lígia.

Leia o texto abaixo e confira a versão impressa neste link, no Acervo Estadão:

Carta a Ferreira de Menezes

Meu caro Menezes,

Estou em a nossa pitoresca choupana do Brás, sob ramas verdejantes de frondosas figueiras, vergadas sob o peso de vistosos frutos, cercado de flores olorosas, no mesmo lugar onde, no começo deste ano, como árabes felizes, passamos horas festivas, entre sorrisos inocentes, para desculpar ou esquecer humanas impurezas.

Daqui, a despeito das melhoras que experimento, ainda pouco saio à tarde, para não contrariar as prescrições do meu escrupuloso médico e excelente amigo, Dr. Jaime Serva.

Descanso dos labores e elucubrações da manhã, e preparo o espírito para as lutas do dia seguinte.

Este mundo é uma mitologia perfeita: o homem é o eterno Sísifo.

Acabo de ler na Gazeta do Povo, o martirológio sublime dos quatro Espártacos que mataram o infeliz filho do fazendeiro Valeriano José do Vale.

É uma imitação de maior vulto da tremenda hecatombe, que aqui se presenciou na heroica, a fidelíssima, a jesuítica cidade de Itu, e que foi justificada pela eloquente palavra do exmo. sr. dr. Leite de Morais, deputado provincial e professor considerado de nossa faculdade jurídica.

Há cenas de tanta grandeza, ou de tanta miséria, que por completas em seu gênero, não se descrevem; o mundo e o átomo por si mesmos se definem; assim, o crime e a virtude guardam a mesma proporção; assim, o escravo que mata o senhor, que cumpre uma prescrição inevitável de direito natural, e o povo indigno, que assassina heróis, jamais se confundirão.

Eu, que invejo com profundo sentimento estes quatro apóstolos do dever, morreria de nojo, por torpeza, achar-me entre essa horda inqualificável de assassinos.

Sim! Milhões de homens livres, nascidos como feras ou como anjos, nas fúlgidas areias da África, roubados, escravizados, azorragados, mutilados, arrastados neste país clássico da sagrada liberdade, assassinados impunemente, sem direitos, sem família, sem pátria, sem religião, vendidos como bestas, espoliados em seu trabalho, transformados em máquinas, condenados à luta de todas as horas e de todos os dias, de todos os momentos, em proveito de especuladores cínicos, de ladrões impudicos, de salteadores sem nome; que tudo isso sofreram e sofrem, em face de uma sociedade opulenta, do mais sábio dos monarcas, à luz divina da santa religião católica, apostólica, romana, diante do mais generoso e mais interessado dos povos; que recebiam uma carabina envolvida em uma carta de alforria, com a obrigação de se fazerem matar à fome, à sede e à bala nos esteiros paraguaios e que nos leitos dos hospitais morriam, volvendo os olhos ao território brasileiro, os que, nos campos de batalha, caíam, saudando risonhos o glorioso pavilhão da terra de seus filhos; estas vítimas que, com seu sangue, com seu trabalho, com sua jactura, com sua própria miséria constituíram a grandeza desta nação, jamais encontraram quem, dirigindo um movimento espontâneo, desinteressado, supremo, lhes quebrasse os grilhões do cativeiro!...

Quando, porém, por uma força invencível, por um ímpeto indomável, por um movimento soberano do instinto revoltado, levantam-se, como a razão, e matam o senhor, como Lusbel mataria Deus, são metidos no cárcere; e aí, a virtude exaspera-se, a piedade contrai-se, a liberdade confrange-se, a indignação referve, o patriotismo arma-se: trezentos cidadãos congregam-se, ajustam-se, marcham direitos ao cárcere: e aí (oh! é preciso que o mundo inteiro aplauda) a faca, o pau, a enxada, o machado, matam valentemente a quatro homens; menos ainda, a quatro negros; ou, ainda menos, a quatro escravos manietados numa prisão.

Não! Nunca! Sublimaram-se, pelo martírio, em uma só apoteose, quatro entidades imortais!

Quê! Horrorizam-se os assassinos de que quatro escravos matassem seu Senhor! Tremem porque eles, depois de lutuosa cena, se fossem apresentar à autoridade?

Miseráveis; ignoram que mais glorioso é morrer livre numa forca, ou dilacerado pelos cães na praça pública, do que banquetear-se com os Neros na escravidão.

Sim! Já que a quadra é dos acontecimentos; já que as cenas de horror estão na moda; e que os nobilíssimos corações estão em boa maré de exemplares vinditas, leiam mais esta:

Foi no município de Limeira; o fato deu-se há dois anos.

Um rico e distinto fazendeiro tinha um crioulo do norte, esbelto, moço, bem parecido, forte, ativo, que nutria o vício de detestar o cativeiro: em três meses fez dez fugidas!

Em cada volta sofria um rigoroso castigo, incentivo para nova fuga.

[A] mania era péssima, o vício contagioso e perigosíssima a imitação.

Era indeclinável um pronto e edificante castigo.

Era a décima fugida, e dez são também os mandamentos da lei de Deus, um dos quais, o mais filosófico e mais salutar é castigar os que erram.

O escravo foi amarrado, foi despido, foi conduzido no seio do cafezal, entre o bando mudo, escuro, taciturno dos aterrados parceiros; um Cristo negro, que se ia sacrificar pelos irmãos de todas as cores.

Fizeram-no deitar; e cortaram-no, a chicote, por todas as partes do corpo; o negro transformou-se em Lázaro, o que era preto se tornou vermelho.

Envolveram-no em trapos...

Irrigaram-no de querosene, deitaram-lhe fogo... Auto-de-fé agrário!...

Foi o restabelecimento da Inquisição, foi o renovamento do touro de Fálaris, com a dispensa do simulacro de bronze, foi a figura das candeias vivas dos jardins romanos: davam-se, porém, aqui duas diferenças: a iluminação fazia-se em pleno dia; o combustor não estava de pé, empalado, estava decúbito; tinha por leito o chão, de que saíra e para o qual ia volver em cinzas.

Isto tudo consta de um auto, de um processo formal; está arquivado em cartório, enquanto o seu autor, rico, livre, poderoso, respeitado, entre sinceras homenagens, passeia ufano por entre os seus iguais.

Dirão que é justiça de salteadores?

Eu limito-me a dizer que é digna dos nobres ituanos, dos limeirenses e dos habitantes de Entre-Rios.

Estes quatro negros, espicaçados pelo povo, ou por uma aluvião de abutres, não eram quatro homens, eram quatro ideias, quatro luzes, quatro astros; em uma convulsão sidérea desfizeram-se, pulverizaram-se, formaram uma nebulosa.

Nas épocas por vir, os sábios astrônomos, os Aragos do futuro hão de notá-los entre os planetas: os sóis produzem mundos.

Teu Luiz.

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