Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Fiéis vigiam igreja na nova Cracolândia

Primeira Igreja Batista de SP perdeu frequentadores com megaoperação que levou viciados à Praça Princesa Isabel

Felipe Resk, O Estado de S.Paulo

30 Maio 2017 | 03h00

SÃO PAULO - José Carrasco é um senhor de 65 anos, estatura mediana e com a cabeleira mais para branca do que grisalha. Religioso, ele frequenta há 15 anos a Primeira Igreja Batista de São Paulo, que fica na Praça Princesa Isabel, no centro da capital. Foi lá onde se instalou uma nova Cracolândia, após operação policial na semana passada dispersar os usuários de droga do antigo quadrilátero da droga. Foi quando Carrasco assumiu uma nova função no templo: segurança voluntário.

Com medo de circular mais perto do fluxo, ao menos 30% dos fiéis faltaram aos cultos na semana anterior, segundo cálculos da Igreja. Por isso, Carrasco foi um dos membros da comunidade religiosa que aceitou vestir um colete e ficar com os olhos atentos na movimentação da Praça Princesa Isabel. “Como eu faço parte, conheço bem quem frequenta”, diz. “Então, a ideia é identificar quem é quem e fazer com que as pessoas se sintam acolhidas, se sintam seguras, ao me ver.”

Carrasco conta que já trabalhou como vigilante. Segundo ele, o trabalho tem sido tranquilo. “É sossegado. Se a gente não mexe com eles (usuários), eles não mexem com a gente”, diz.

“Os membros fazem trabalho voluntário, com reforço principalmente em horários de culto”, admite o pastor Reinaldo Junior, de 35 anos, segundo quem, também foi pedido reforço de policiamento ao 13.º Batalhão da Polícia Militar, responsável pela área. A Igreja também pôs à disposição dos fiéis, no domingo, uma van para levá-los ao Metrô Santa Cecília e ao Terminal Princesa Isabel. “No domingo da operação ficou bem vazio”, relata.

A Primeira Igreja Batista é conhecida pelo trabalho social realizado com usuários de drogas da Cristolândia. O projeto oferece café da manhã, banho e almoço aos usuários. “Depois da operação, o fluxo na Cristolândia cresceu de 300 para 450 pessoas por dia”, diz Junior.

O projeto faz, ainda, internação voluntária em quatro comunidades terapêuticas. As cerca de 120 vagas, no entanto, já estão preenchidas. “Não é só a gente: todos os lugares estão cheios”, afirma. “Por isso que, antes de se falar em internação compulsória, como está sendo discutido, tem de saber se há vagas disponíveis. Não há.” 

Violência. Nesta segunda-feira, 29, por volta das 16 horas, quatro equipes da AES Eletropaulo foram à Praça Princesa Isabel para fazer reparos nos postes. O motivo é que os fios haviam sido furtados, deixando boa parte da região às escuras. “De manhã já estava sem luz”, diz o comerciante Antônio Ferreira, de 59 anos. “Já é a terceira vez só de quinta-feira (dia 25) para cá. A gente tenta trabalhar, mas não consegue vender nada”, conta.

Segundo Ferreira, os furtos de fiação começaram depois que os usuários passaram a concentrar-se na praça, cujo número de barracas tem crescido dia a dia. Na sexta, eram 15. Nesta segunda, mais de 35. “Em 30 anos aqui eu nunca vi nada parecido com essa situação.” Para Devarlei Splendore, de 53 anos, os moradores estão “sitiados”. “Os assaltos estão acontecendo à luz do dia. Ontem (domingo, 28) mesmo eu vi um à mão armada. Depois, o meliante foi se esconder na nova Cracolândia.”

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