WERTHER SANTANA/ESTADÃO
WERTHER SANTANA/ESTADÃO

'Fico ouvindo na minha cabeça as pessoas gritando, pensando que não pude ajudar todo mundo'

Moradores próximos de áreas atingidas por deslizamentos no Guarujá relatam como ajudaram a retirar vítimas soterradas

Priscila Mengue, O Estado de S. Paulo

05 de março de 2020 | 09h15

GUARUJÁ - O recauchutador Raphael Soares, de 22 anos, lembra a todo momento dos gritos por socorro que ouviu na madrugada de segunda-feira, 2. Com as próprias mãos, pedaços de madeira e o que mais encontrou pela frente, ele e mais de dez vizinhos foram os primeiros a resgatar vítimas dos deslizamentos na Barreira João Guarda, no Guarujá, o local que mais concentrou vítimas das chuvas na Baixada Santista.

Ele lembra que estava tirando a água que invadia a própria casa - "na rua, chegava até a cintura" - no momento que ouviu um barulho, parecido com um trovão. Um vizinho foi conferir o que ocorreu e regressou correndo, relatando que uma casa tinha caído. 

"Falamos: 'vamos subir'. Quando a gente olhou não era uma casa, nem duas. Era tudo pedra, lama. Tinha ali mais de 70 casas", estima.

"A gente não tinha a dimensão do que era. Achou que uma casa tinha caído, quando viu o estrago, ficou sem reação. Foram cinco minutos de choque, aí a gente escutou um amigo nosso gritando 'socorro, socorro, me ajuda, minha mulher, minha filha'", conta. "A gente ajudou quem a gente enxergava. Quebrou telha no soco. Teve muita coisa que a gente fez que nunca fez na nossa vida."

"Tiramos um rapaz amigo nosso, enrolamos em um lençol e descemos com ele, que estava com as duas pernas quebradas", lembra. "Tem muita gente aqui, vou falar para você, que na hora do desespero virou anjo, levantou pedra que não teria força pra levantar."

"Tem muito amigo que a gente sabe que não vai ver mais", lamenta. "Era um pessoal que morava há 10, 15 anos, que passava todo dia na frente da nossa casa, que dava bom dia, boa tarde", comenta. "Fico ouvindo na minha cabeça as pessoas gritando, pensando que não pude ajudar todo mundo."

Desde o deslizamento, Soares calcula ter conseguido dormir cerca de quatro horas. Ele teve de deixar a casa temporariamente para se alojar na Escola Municipal Professora Dirce Valério Araújo, mas segue ajudando nas buscas por desaparecidos e no auxílio aos moradores.

Já o pedreiro Erick Araújo, de 20 anos, ajudou no resgate na Barreira mesmo com o pé fraturado, que agora está ainda mais inchado. "Só deu tempo de colocar um tênis e subir."

"Nunca pensei que um bagulho desse aconteceria aqui. Perdi até o meu primo. Como a gente iria abandonar quem a gente conhecia?"

Também na Barreira, o mecânico Jeferson do Nascimento Nogueira, de 26 anos, por ser mais baixo e pequeno, conseguiu entrar em um buraco para tirar um bebê de 3 meses. "Estava coberto de barro", lembra.  "Nossa, não tem palavras, ali foi Deus usando as nossas mãos."

Nogueira e outros amigos salvaram quatro pessoas de uma família de seis. "Queria ter conseguido tirar pelo menos mais o menino e a menina (de 6 e 4 anos, respectivamente), mas a gente não sabia que estavam lá."

'Deixamos tudo para trás'

Morador do Morro do Macaco Molhado, também no Guarujá, o atendente de quiosque Wellington Sant'Ana, de 41 anos, também saiu de casa ao ouvir o chamado da vizinha Tathiana Gomes, de 25 anos, que acabou morrendo soterrada junto do filho Arthur, de 10 meses. "Cavamos, tiramos pedra, acabamos encontrando o bebê."

Após ajudar a retirar o corpo, foi para casa e não encontrou a esposa e os filhos, deslocando-se para procurá-los na sogra. Após encontrar a família, que saiu por causa do alagamento, decidiu voltar para dormir na própria residência sozinho, na encosta do morro. 

"Voltei e minha casa estava coberta de barro, desapareceu. Só desci porque a minha mulher não estava lá. Iria dormir, estaria dormindo quando teve o segundo desmoramento."

Também abrigado na Escola Dirce Valério Garcia, Sant'Ana está preocupado com a falta de moradia definitiva para a família, que inclui crianças de 9 meses e 3 e 4 anos.

"Perdemos tudo, estamos esperando a ajuda vir de algum lugar. Como vai ficar agora com as aulas?", questiona. "Não temos lugar ficar, não temos nada, nem documento, deixamos tudo para trás."

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