Festas em mansões tiram o sono de bairros residenciais

Por até R$ 55 mil, imobiliárias e proprietários alugam imóveis para baladas barulhentas no fim de semana em ruas nobres de São Paulo

Rodrigo Brancatelli, O Estado de S.Paulo

04 de julho de 2010 | 00h00

Conheça Anderson Costa Freitas. Baixinho, falante, desempregado de 31 anos, morador do bairro de Santana, que cruza a cidade nos fins de semana para vender doces e cigarros com seu tabuleiro de madeira em danceterias da zona sul. Anderson tem chicletes por R$ 3, isqueiros por R$ 5, dropes por R$ 4. Figurinha carimbada na porta de baladas da Vila Olímpia e do Itaim-Bibi, Anderson agora simboliza uma nova tendência que vem fazendo barulho na noite de São Paulo. Literalmente.

Na madrugada do último domingo, ele e outros dois vendedores de balas estavam na porta de um luxuoso sobrado no Morumbi. Apesar de ocorrer em um bairro estritamente residencial, a cena é simplesmente caótica - carros por todos os lados, estacionados em fila dupla; manobristas correndo de um lado para o outro; música eletrônica alta e dezenas e dezenas de jovens que pagaram até R$ 250 de entrada. "Desde o começo do ano tenho vindo nessas festas fechadas, o movimento é ótimo, dá para fazer um troco bom", diz Anderson. "É uma balada como outra qualquer."

Com o grande número de casas vazias em bairros nobres como o Morumbi e Pacaembu que não conseguem ser vendidas no mercado, cada vez mais imobiliárias e proprietários estão alugando os endereços para festas de particulares. Por R$ 15 mil, é possível fazer uma festança em um sobrado amarelo no Morumbi. Por R$ 20 mil, aluga-se por dois dias uma mansão no Alto da Lapa com 3.500 metros quadrados de área. Já por R$ 50 mil, o endereço pode ser no Pacaembu, com piscina e o dobro da metragem.

Quem sofre com isso são os vizinhos, que não conseguem ter sossego, mesmo ligando para a subprefeitura ou para a Polícia Militar.

Reclamações. "De mês em mês fazem uma festa aqui na casa do lado. Eu já liguei dezenas de vezes para todas as instâncias. Sou um colecionador de protocolos, mas nada adianta", reclama o designer gráfico Maurício Molina, morador do Jardim São Bento, na zona norte da capital. "O Psiu (Programa de Silêncio Urbano) diz que não pode fazer nada e a PM até vem, mas logo que a viatura vai embora a música alta volta. Aqui em casa temos dormido à base de protetores de ouvido."

Segundo a Polícia Militar, de 2006 a 2010, os casos de "perturbação do sossego" cresceram 226% pelas ruas de São Paulo. As reclamações feitas por moradores que não conseguem dormir por culpa do barulho do vizinho crescem de 392 em média durante a semana para 1.118 de sexta-feira a domingo. O problema é ainda maior porque a legislação é falha e repleta de lacunas. O Plano Diretor da cidade define como horário de silêncio em zonas residenciais o período das 22 às 7 horas. Mas o Psiu não pode atuar em residências, apenas em estabelecimentos comerciais. Já a Polícia Militar pode até fazer papel de mediador, mas não tem como multar, muito menos entrar na casa para abaixar o volume.

Licença. As festas só precisam ter licença da Prefeitura se houver venda de ingresso. Mas, se os fiscais não estiverem no local de madrugada para flagrar a irregularidade, não haverá multa nem lacração. "A gente chega ao ponto de ter de ficar xeretando antes na internet para ver se tem alguém anunciando festa aqui no bairro e poder avisar a Subprefeitura com antecedência", reclama Marisa Rodrigues, moradora do Morumbi. "Ou seja: não só não conseguimos dormir, como também temos de fazer o trabalho para o poder público."

O MAPA DO BARULHO

Morumbi: As mansões mais procuradas ficam nas Ruas Malvinas, Albertina de Oliveira Godinho, Jabuticabeiras e Jabebira

Butantã: Rua Francisco Perroti

Pacaembu/ Consolação: Ruas Itabaquara, Traipu, Avaré e Teodoro Ramos

Perdizes: Rua Aleixo Jorge

Lapa: Rua Bernardino de Sena

TIRE SUAS DÚVIDAS

Como fazer a reclamação

1.

Quando é possível reclamar de barulho no Psiu?

É possível reclamar de barulho no site da Prefeitura (sac.prefeitura.sp.gov.br/), pelo número 156 ou na praça de atendimento da subprefeitura de seu bairro. Vale destacar, porém, que essa via só costuma ser útil contra barulhentos frequentes, como bares, casas noturnas e igrejas. Não é possível reclamar de barulho em residências.

2.

A Polícia Militar pode interceder nesses casos?

A Polícia Militar (telefone 190) pode fazer um papel de mediador entre os dois lados, mas não tem como multar nem pode entrar na residência para abaixar o volume. É possível ir até a delegacia fazer um termo circunstanciado por "perturbação do sossego".

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