Hélvio Romero/Estadão
Hélvio Romero/Estadão

Festa do 4º Centenário

O dia em que o estádio virou circo

Daniel Trielli, O Estado de S. Paulo

24 Janeiro 2015 | 16h00

Eu tinha menos de 3 anos quando entrei no Estádio do Pacaembu pela primeira vez. Senti o chão tremer sob a turbulência da multidão. Quis fugir, mas não pude. Parei de respirar, ouvi meu coração aos golpes, fechei os olhos quase chorando, e me deixei levar pela mão que me puxava com força. Um minuto depois, eu esquecia completamente o medo e participava de uma das maiores aventuras que a cidade já viveu, a comemoração do 4.º Centenário.” 

A memória do evento, em 11 de julho de 1954, foi tão intensa, que é assim, com flashes de tato, cor e som, que Domício Pacheco e Silva, hoje advogado de 64 anos, reconta a primeira memória de sua vida.

O anúncio publicado no dia 8 de julho de 1954 no Estado já adiantava que os próximos três dias seriam históricos: “Tudo pronto para as festas da cidade em homenagem ao 4.º Centenário”, que também homenagearia a Revolução de 1932. No dia 9, uma esquadrilha da Força Aérea despejaria 30 milhões de triângulos de papel prateado. No dia 10, festas infantis em todos os bairros. E, no dia 11, o evento que ficaria marcado como a primeira memória de Pacheco: um grande circo seria montado no Estádio do Pacaembu.

Pacheco lembra bem dos tambores e trombetas que acompanharam os trapezistas e palhaços. Mas ele conta que o ponto alto da festa foram os globos da morte, nos quais motociclistas executaram manobras “que deixaram todos sem respiração”.

Como recordação, guardou por muitos anos os triângulos de papel prateado jogados dos aviões. “No jardim de infância e nos primeiros anos do curso primário, eu e meus colegas de classe trocávamos figurinhas no recreio e muitas vezes negociávamos as papeletas prateadas, muito valorizadas naquele nosso comércio infantil.”

Mesmo com só 3 anos na época, a memória é forte. “Acho que a explicação é simples: qual é a criança pequena que não gosta de festas de aniversário? Devo ter ficado em expectativa ao aguardar o grande aniversário da cidade, que em seguida se revelou o maior, o mais espetacular e o mais festivo aniversário que já presenciei em toda a minha vida.”

Além disso, há uma ligação especial com o Pacaembu. Seu avô, de quem herdou o nome, foi o idealizador do estádio. Ele ainda lembra de ouvir o outro Domício Pacheco e Silva contar: “De um estalo percebi que seria possível aproveitar o vale para servir de campo de esportes e a encosta das montanhas para as arquibancadas. Evitaria grandes movimentações de terra e dispensaria boa parte das caríssimas estruturas de concreto para as arquibancadas”, dizia o avô. “Ele não só acompanhou os levantamentos topográficos como desenhou as curvas de nível e preparou, mesmo não sendo arquiteto, o projeto preliminar”, lembra o neto.

O presente do avô de Pacheco à cidade, inaugurado em 1940, foi utilizado em finais de campeonato, jogos da Copa de 1950, shows e até na visita do papa Bento XVI, em 2007. Hoje, é sede do Museu do Futebol, sucesso de público na cidade. Mas o futuro é incerto. Desde 2005, uma liminar veta apresentações musicais no local, a pedido dos moradores do bairro. E, com a inauguração da Arena Corinthians e do Allianz Parque, do Palmeiras, resta saber qual vai ser o uso que será dado para o Pacaembu.

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