Fabio Motta/AE
Fabio Motta/AE

Fenômeno raro e ocupação caótica agravam tragédia

Deslizamento chamado de corrida de lama e detritos é o de maior magnitude possível e empurra massa de lama, árvores e água

Bruno Tavares e Rodrigo Brancatelli, O Estado de S.Paulo

13 Janeiro 2011 | 00h00

A catástrofe da região serrana do Rio foi causada por um tipo de deslizamento considerado raro e avassalador por geólogos. Além do escorregamento de terra, a tragédia foi agravada por um fenômeno chamado de corrida de lama e detritos. É quando uma série de deslizamentos acontece ao mesmo tempo, no mesmo lugar, e tão rápido que praticamente impede que as pessoas se protejam. Trata-se da maior magnitude de escorregamento de terra possível.

"É uma avalanche de poder destrutivo estúpido", explica o geólogo Álvaro Rodrigues dos Santos, ex-diretor de Planejamento e Gestão do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT). "A massa de terra e detritos acaba com o que está pela frente."

Essa avalanche fez com que corpos das vítimas fossem carregados morro abaixo por até 15 quilômetros de distância. "Na verdade, o deslizamento é a massa de solo que desloca. Chove, encharca e desloca", diz Kátia Canil, do Laboratório de Riscos Ambientais do IPT. "A corrida ocorre quando vários deslizamentos se juntam, formam uma massa maior com árvores, terra, água e detritos e destrói o que vem pela frente. É muita velocidade."

Ainda de acordo com os geólogos, a corrida acaba destruindo uma área muito maior, inclusive regiões que não ficam exatamente nas encostas. Esse tipo de fenômeno é considerado incomum porque é necessário uma somatória de fatores, como uma grande quantidade de chuva, um solo já encharcado e instável e declives muito acentuados.

Foi justamente a corrida de lama e detritos que causou algumas das maiores tragédias do País, como o deslizamento de Caraguatatuba, em 1967, e o desastre de Santa Catarina, em 2008. "O deslizamento acontece em espaços mais curtos e a chance de escapar acaba sendo maior", explica Kátia Canil. "A corrida vai mais longe e é mais implacável."

Administração. Ainda que tenha um grande poder de destruição, a "corrida" no Rio só causou tantas mortes porque, a exemplo de outras cidades brasileiras, Teresópolis, Nova Friburgo e Petrópolis sofrem com a ocupação desordenada de encostas - por favelas e por loteamentos de classe média e de luxo. Ainda de acordo com especialistas, o poder público também tem sua parcela de culpa pela tragédia, por não fiscalizar a ocupação do solo.

"É bom sempre frisar que a responsabilidade não deve ser creditada a fenômenos como o aquecimento global ou a imprevistos geológicos e pluviométricos. Tudo que tem acontecido está associado à desordenada ocupação urbana de áreas geologicamente inadequadas", diz o geólogo Álvaro Rodrigues dos Santos. "Em respeito à vida e por um ato de justiça social, os geotécnicos devem redobrar o empenho em pressionar as autoridades a optar pelo reassentamento das populações nas áreas de alto risco."

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