Favela agora quer registrar sua visão da história

Entidades concentram suas ações na produção de filmes, peças de teatro, literatura e música em bairros pobres espalhados pelo País

Bruno Paes Manso e Rodrigo Brancatelli, O Estado de S.Paulo

31 Outubro 2010 | 00h00

Vieram de favelas brasileiras o cantor baiano Carlinhos Brown, os pernambucanos Chico Science e Fred 04 e os paraenses do Calypso, músicos que ajudaram a transformar a cena artística contemporânea. Zezé Di Camargo e Luciano moraram em favelas goianas; Elba Ramalho, em Pernambuco. Apesar desses talentos estarem desde sempre difundindo tendências e contribuindo para a formação da identidade nacional, só nos últimos anos as favelas e seus moradores passaram a reivindicar formas de ampliar as oportunidades e caminhos para o surgimento de artistas e pensadores que ajudem a disseminar a cultura local.

E assim mergulharam nas reflexões a respeito de si próprios. "Nos anos 1980, as favelas foram redutos dos movimentos populares que reivindicavam direitos sociais. Atualmente, a principal questão política desses grupos é a identidade e a cultura das favelas", diz o cientista político Eduardo Marques, do Centro de Estudos da Metrópole.

Entidades como a Central Única das Favelas (Cufa), AfroReggae, Nós do Morro, Observatório de Favelas e Nação Hip Hop concentram suas ações no estimulo à criação e produção de filmes, peças de teatro, literatura e música nos bairros pobres. São frutos desses trabalhos filmes como 5 Vezes Favela, agora por Nós Mesmos, Cidade dos Homens e Cidade de Deus, este último produzido com artistas formados nas favelas. A Cufa atualmente tem um acervo de cerca de 800 filmes só com diretores de favelas de todo o mundo.

"No cinema, a favela é sempre vista de fora para dentro, com aquela visão deturpada do samba, futebol, pessoas sorrindo toda hora. A história não foi registrada com a nossa visão", diz Nega Gizza, nome artístico de Gisele Gomes de Souza, uma das fundadoras da Cufa. "Eu acredito no poder da imagem. É uma ferramenta rápida e fácil de passar uma opinião, de mostrar uma realidade. É uma arma branca, uma chance de mostrar propostas e discussões, e também ajuda a criar uma nova relação com a favela. Além disso, é uma oportunidade de a pessoa se inserir num mercado, pesquisar, crescer, criar novas ideias", afirma.

Na Real Parque, na zona sul de São Paulo, a Cufa tem hoje 50 alunos de teatro e audiovisual. Aprendem desde roteiro, direção de fotografia, direção de arte e edição. Na quinta-feira, circularam pela favela com câmeras na mão, vestindo a camisa do projeto Maria Maria. O trabalho de encerramento de curso será um filme sobre o alcoolismo. "O Zé Pequeno (personagem de Cidade de Deus) não nasceu mau, matando todo mundo. Existe um olhar daqui de dentro que podemos mostrar, como narradores de nossa própria história", diz Patrícia Souza Limeira, coordenadora do Maria Maria.

Sem estereótipos. E até a música mudou. Viraram clássicas canções de sambistas vindos dos morros do Rio, como Cartola, Clementina de Jesus, Elza Soares e Martinho da Vila. Agora, há a fúria do punk rock nas periferias de Manaus, que coloca para fora algumas frustrações do dia a dia das favelas. Mesma motivação que impulsiona o rap brasileiro, nascido no cenário violento das periferias de São Paulo dos anos 1990, que já se espalhou pelas "quebradas" de outros 26 Estados. Já no Pará os moradores das favelas dançam ao som do tecnobrega. Ritmo mais festivo, feito para homens e mulheres suarem com os rostos colados, segue o espírito do samba e do funk, surgidos nos morros do Rio de Janeiro e agora associados à identidade nacional.

Para o sociólogo Jessé de Souza, da Universidade de Brasília, no entanto, é fundamental evitar que a discussão fique fragmentada e se restrinja à favela. "A questão subjacente a todo o problema social brasileiro é um só: a constituição de uma classe social precarizada e desaparelhada para competir com um mínimo de igualdade de condições com as classes médias, que exploram seu trabalho desqualificado e de baixo preço para se dedicar a atividades rentáveis e reconhecidas socialmente - e não restritas só às favelas."

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