Fantasmas de cemitério

Fantasmas rondam os cemitérios de São Paulo. Têm duas pernas, não gostam de gente nem se identificam com os valores e a memória da sociedade. São egoístas, perdidos na escuridão da ignorância. São pobres de espírito e de tantas virtudes mais. Faltaram-lhes um dia a palmada educativa, a palavra esclarecedora, o amor que liberta. No lugar, ficaram-lhes a fumaça da liberdade ilusória, o pó da quimera do instante, a agonia da embriaguez traficada. Fizeram do sonho um pesadelo. Refugiam-se nos escaninhos da noite para escapar das virtudes emancipadoras do trabalho, dos deveres sociais, da responsabilidade coletiva. Pensam que gostam de si mesmos odiando o que nos expressa a todos, a arte e a história.

José de Souza Martins, O Estado de S.Paulo

28 Fevereiro 2011 | 00h00

Encontraram nos cemitérios o território de sua mísera visão de mundo. Matam os mortos. Depredam túmulos, roubam objetos pelo simples prazer de atacar monumentos indefesos, obras de arte que a todos pertencem, objetos de bronze para derreter nas fundições de satã, para o dinheiro fácil do vício e da malandragem.

Em maio de 2008, um grupo de ladrões foi surpreendido e preso, pulando o muro do Cemitério da Quarta Parada, com 78 placas de bronze, que iam vender para um ferro-velho. Ladrões de nomes e de idades. Ladrões da história.

Foi pior no Cemitério da Consolação. O belo anjo de cerâmica, com vestes esmaltadas de branco, asas de alumínio, que Fúlvio Pennachi esculpira para o sepulcro da família de Atílio Matarazzo, sua família, onde um dia seria sepultado, foi atacado e despedaçado por vândalos. Tal a mutilação que foi impossível restaurar a obra de arte.

Somos vítimas dessa peculiar modalidade de gatunagem na destruição das obras do espírito.

Mas Deus castiga, como se diz. Há alguns anos, numa orgia, altas horas da noite, num túmulo do Consolação, o pesado anteparo de granito do túmulo violado, onde um infeliz fazia exibições, caiu-lhe sobre as pernas que foram esmagadas. Abandonado pelos "colegas", que fugiram, foi socorrido pelo guarda-noturno e pelos bombeiros. Teve as pernas amputadas, sepultadas em algum cemitério por aí como pernas de um indigente meio morto, meio vivo. Dá muita pena.

No final de 2010, descobriu-se, no Consolação, que a sepultura de Luisa Crema Marzoratti, jovem pianista, perto do portão da Rua Mato Grosso, sempre aberto e livre, fora depredada mais uma vez. Já haviam serrado e levado um pedaço da belíssima escultura de mármore.

Se íntegra, a obra de arte continuaria sendo apreciada por muitos, como o vinha sendo desde 1922.

Agora, levaram a placa de bronze que continha delicada gravura de uma ninfa tocando a lira e um poema comovente, placa enviada da Itália pela mãe da artista, uma poetisa da escola decadendista, alusivo à alma chopiniana de sua filha musicista. Silenciaram a poesia. Um dia silenciarão todos nós.

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