Famílias querem manter 'meninas de arrastão' em abrigo

Para parentes de 3 das 7 acusadas de roubos na Vila Mariana, ficar em uma instituição pública é a melhor saída para que 'criem juízo'

Luísa Alcalde, O Estado de S.Paulo

18 de agosto de 2011 | 00h00

Familiares de três das sete crianças e adolescentes acusadas de fazer arrastões na Vila Mariana, zona sul de São Paulo, querem que elas fiquem no abrigo para onde foram levadas na semana passada até completarem a maioridade - ou até que estejam maduras e "criem juízo para sair dessa vida de criminalidade".

"Quero que ela saia de lá (do abrigo) só depois dos 18 anos", disse a mãe de uma menina de 13 anos. "Só assim vai criar jeito. Aqui fora não consigo segurar. Ela volta para a rua." Na semana passada, as sete meninas foram apreendidas quando tentavam roubar uma motorista na região da Rua Domingos de Morais. No dia 11, foram levadas para uma instituição municipal, mantida em sigilo pela Prefeitura.

Anteontem, a reportagem encontrou parentes de três das sete crianças e adolescentes no Sítio Conceição e no Jardim Maravilha, ambos na região de Cidade Tiradentes, extremo da zona leste, e também na Casa Verde Alta.

"Se ela não ficar lá (no abrigo), vai fugir de novo. A avó acha que ela tem de ficar uns tempos para tomar jeito", diz o tio de uma menina de 11 anos. Ele não quis se identificar. O pai da garota deixou a cadeia recentemente e sua mãe está presa há dois anos na Penitenciária Feminina de Santana, na zona norte.

A menina morava com o tio, a tia e os dois primos. Segundo ele, a garota abandonou os estudos. "Ela era a terrorista da escola. Toda hora recebíamos recados para comparecer lá porque ela tinha aprontado. Até que abandonou este ano na quinta série. Ela é inteligente. Não bebe, não fuma e não usa drogas", afirma o parente.

No Jardim Maravilha, a pobreza é evidente: o esgoto corre a céu aberto por entre barracos de madeira dispostos em apertadas vielas. Há lixo espalhado por todos os cantos. A lei do silêncio predomina. Todas as pessoas, com exceção da avó da menina de 11 anos, pediram anonimato.

A vizinha de uma das mães das "meninas do arrastão" disse não se conformar até hoje com a prisão da amiga -no dia da apreensão das crianças, quatro mães foram detidas por abandono de incapaz. "Ela é trabalhadora. Sai de casa cedo para trabalhar na reciclagem", contou. Quando a amiga foi presa, ela começou a arrecadar dinheiro no bairro, para pagar a fiança de R$ 182 para livrá-la da cadeia. "Mas antes disso, o atual marido dela, que trabalha registrado, conseguiu um empréstimo na firma." No dia seguinte à prisão, a Justiça determinou a soltura das quatro mães.

As pessoas ouvidas pela reportagem relataram ainda constantes brigas e casos de violência doméstica nas famílias das meninas acusadas pelos arrastões.

Comércio. Na Vila Mariana, comerciantes e seus funcionários afirmam que a tranquilidade voltou. "Estamos trabalhando mais sossegadas, mas temo que elas retornem", disse Sheila Félix, caixa da loja Think About, na Avenida Domingos de Morais. Valdênia Gomes, vendedora da Simple Store, confirma. "Não apareceu mais nenhuma (criança) por aqui. É um alívio."

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