FOTO GABRIELA BILO / ESTADAO
FOTO GABRIELA BILO / ESTADAO

Famílias imortalizam os heróis da Revolução de 1932

Vestígios de mais 8 ex-participantes vão para o Obelisco do Ibirapuera e celebram memórias paulistanas

Priscila Mengue, O Estado de São Paulo

09 Julho 2018 | 03h00

"Este depoimento é, quando pouco, um documento que me fará mais tarde relembrar os grandiosos dias que São Paulo viveu de julho a outubro de 1932 e os dias que também vivo como soldado”, diz o prólogo do diário de Nilo Porto. Guardado como relíquia pela família, a peça reúne algumas das tantas histórias do front contadas às filhas Célia e Cynthia, advogadas aposentadas, respectivamente com 63 e 60 anos. 

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A memória da revolução é tão presente na família Porto que Cynthia até costuma desfilar no feriado de 9 de Julho com um fardamento de soldado feito sob medida, sobre o qual coloca as medalhas e a braçadeira do pai, guardadas como se “fossem uma joia”. “Ele não perdia um desfile, foi até 1985 (um ano antes de morrer)”, conta.

Nesta segunda-feira, 9, os restos mortais de Porto serão transladados para o Obelisco Mausoléu aos Heróis de 32, no Ibirapuera, zona sul de São Paulo. As cinzas de outros sete ex-participantes também serão levadas para o local, que já reúne vestígios de 853. Como aponta o presidente da Sociedade de Veteranos de 1932, coronel Mário Fonseca Ventura, o mausoléu reúne todas as facetas da revolução, desde o ex-governador (Pedro Toledo) até pessoas que trabalhavam na retaguarda, incluindo imigrantes. 

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Um dos que levarão os restos mortais da família para o mausoléu é o engenheiro aposentado Ricardo Pires Campos, de 76 anos, que fará o translado dos pais e do avô materno. A mãe, Guiomar, foi voluntária no Lunch Express, iniciativa que preparava marmitas para os combatentes. Já o avô, Edmundo Correa Pacheco, fez o policiamento civil, enquanto o pai, Rubens Pires de Campos, participou de batalhas. Dos três, o último a morrer foi a mulher, em 1975, que costumava falar muito daquele período e guardava as fotografias em um álbum, ainda preservado pelo filho. “Ela ficaria muito contente que isso está acontecendo”, diz.

Além de Guiomar, outras duas mulheres terão as cinzas levadas ao mausoléu, dentre as quais está Remédios Domingues Calandriello, morta em 2014. No local, já está seu marido, Américo. “Os pais permitiram que ela fosse ajudar. Apesar de ser jovem, gostava do que São Paulo estava fazendo”, recorda o filho, o engenheiro Diógenes Calandriello, de 77 anos. 

A terceira mulher que terá as cinzas levadas para o mausoléu é Barbara Maria Barbosa, morta em 1979, e que trabalhou como enfermeira durante a revolução. “Ela tinha muito orgulho de ter participado”, conta o neto Edson Galvão, comerciante de 72 anos e descendente de 20 revolucionários. 

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No mausoléu, já estão as cinzas de seus pais, Rosa e José Galvão Nogueira, que participaram da revolução quando eram adolescentes. “Meu avô paterno liderou o primeiro combate em Cunha. Foram 11 fuzileiros que colocaram 400 fuzileiros navais para correr.” 

Parte dessas histórias está no livro que escreveu sobre o tema, Heróis desconhecidos – Revolução Constitucionalista de 1932, lançado em 2014, no qual descreve sua história como a de “uma família unida em uma epopeia”. 

Desafio. Não foi fácil incluir o nome de José Grant entre os oito ex-participantes que serão transladados. Inicialmente, a família tinha só uma fotografia do veterano em Cunha e precisou pesquisar. “Tudo o que tínhamos eram histórias que irmãos dele contavam”, diz a terapeuta ocupacional Mônica Rolim, de 52 anos, sobrinha de Grant. 

Caso semelhante é o da pianista Conceição Branco, de 64 anos, que liderou a ideia de transladar os restos mortais de seu tio paterno Antônio da Paixão Branco Filho para o mausoléu. “No nosso País, essa história é esquecida, meu pai que nos ensinava sobre a revolução.” 

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