Amanda Perobelli/Estadão
Amanda Perobelli/Estadão

Famílias abandonam animais para fugir de incêndio em prédio que desabou

Gatos e cachorros ficaram para trás na pressa para deixar o local; moradores pagavam aluguel de até R$ 350 por mês

Felipe Resk, O Estado de S.Paulo

01 Maio 2018 | 23h00

Deitada em um colchão doado, a auxiliar de limpeza Marta da Cruz, de 54 anos, olhava para canto nenhum. "Não consegui pensar em nada", ela diz, ainda atônita com o incêndio que a fez procurar abrigo sob uma árvore do Largo do Paiçandu, aos fundos da Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos.

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Quando o fogo começou no Largo do Paiçandu, Marta estava dormindo. Com ela, só conseguiu levar a roupa do corpo, uma bolsa (com documento e a chave do trabalho) e 12 prestações que ainda não pagou da geladeira que ficou sob os escombros. "Deixei celular, dinheiro, tudo."

Uma gatinha, de 1 ano, chamada Menina, também ficou para trás. "Tentei pegá-la, mas ela corria", diz Marta. Na hora, ouviu estalos nos vidros do quarto, pelo qual pagava R$ 160 ao mês, e a gritaria da vizinhança. Correu tão atordoada que errou a direção da escada. Foi parar em um paredão de fogo. "No desespero, sai pelo lado errado do corredor."

Uma das mais antigas na invasão, Marta estava no edifício há sete anos. Antes de chegar lá, foi despejada da casa de uma patroa e rodou por outros prédios ocupados da cidade.

Mora em São Paulo desde os 10 anos, quando chegou com a mãe vindo da cidade de Andirá, no interior do Paraná. Um ataque cardíaco havia deixado órfã de pai dois anos antes. Aos 11, começou a trabalhar de babá. Nunca mais viu a mãe.  

Desabou

A poucos metros, sob a mesma árvore, Francisca da Silva, de 41 anos, comia um marmitex de carne assada e arroz. Com uma colher de plástico, servia um dos seus cinco filhos – um menino de 2 anos. "Até agora estou tentando entender o que aconteceu."

Francisca também estava dormindo e sentiu um safanão no braço. Era o marido, assustado com o incêndio. Às pressas, o casal, que morava no 3.º andar, carregou as crianças no colo e ainda conseguiu salvar a vira-lata Mel. Todos desceram pelas escadas. "Foi questão de, por Deus, a gente descer e o prédio desabar", conta.

Vestida com uma calça de gari, que usava de pijama, a desempregada Jéssica Matos, de 20 anos, teve menos sorte: não conseguiu resgatar o seu cachorro, Spyke, e nem os oito gatinhos. "Acordei com a minha mãe gritando: 'É fogo! É fogo!'", diz. "Fui tentar salvar o cachorro, mas ele, com medo, correu para baixo da cama."

O ambulante Wanderley Ribeiro Silva, de 27 anos, estava na zona norte no momento e soube do incêndio pela TV. "Pensei que tinha acontecido uma tragédia com a minha família", diz. Na ocupação, dividia um quarto com outras 11 pessoas, incluindo a mulher e os dois filhos, de 4 e 2 anos.

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Segundo a Prefeitura, 146 famílias(ou 372 pessoas), vítimas do incêndio, foram cadastradas ontem. Elas devem receber auxílio-aluguel de R$ 1,2 mil neste primeiro mês. Nos 11 seguintes, a ajuda reduz para R$ 400. Aos desalojados, foi oferecido abrigo em 107 Centros de Acolhidas, mas a maioria não quis ir para os albergues.

Aluguel

Moradores relataram ao Estado que pagavam "aluguel" para o Movimento Luta por Moradia Digna (LMD) para morar no prédio que desabou. Segundo o coordenador do LMD, Ricardo Luciano, o pagamento, de R$ 80, custeava a manutenção do local. No entanto, integrantes do Movimento de Luta Social por Moradia (MLSM), que faz parte do LMD, afirmam que os valores seriam mais altos, em torno de R$ 100 a R$ 350. 

O perfil do prédio difere de grande parte das ocupações, com estrangeiros e líderes que não são ligados a movimentos de moradia tradicionais. Havia informações de outros grupos que o prédio teria pessoas ligadas ao tráfico. O ex-prefeito de São Paulo e pré-candidato ao governo paulista, João Doria (PSDB), chegou a afirmar que "o prédio foi invadido em parte por uma facção criminosa". As Secretarias de Habitação e Segurança negaram a informação. /COLABOROU GUSTAVO PORTO

 

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