Família de motoqueiro contesta versão de assalto a promotor

"Foram 11 tiros e não oito como estão dizendo por aí. Isso é legítima defesa?" questiona cunhado do motoqueiro

Camilla Haddad, Jornal da Tarde

07 de janeiro de 2008 | 09h52

Embora duas testemunhas ouvidas pela polícia confirmem a versão apresentada pelo promotor de Justiça Pedro Baracat Guimarães Pereira, de 42 anos, de que o motoboy Firmino Barbosa, de 30 anos, teria anunciado um assalto e se preparava para puxar uma arma na hora em que o promotor reagiu, um cunhado de Barbosa, que se identificou como Sinésio, disse que o rapaz morto não tinha passagem pela polícia. O motoqueiro foi morto com pelo menos oito tiros, na noite de sábado, na Avenida República do Líbano, próximo à Praça Doutor Francisco Cintra Godinho, no Ibirapuera, zona sul da capital.   Barbosa, que não portava arma, ainda foi socorrido pela Polícia Militar e levado ao Hospital São Paulo, mas morreu no caminho. Enquanto ocorria o resgate, o promotor, que atua na área criminal e investigou, em agosto de 2006, o envolvimento de 25 pessoas com a facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC), em São Paulo, seguiu para o Departamento de Investigações Sobre o Crime Organizado (Deic) para registrar a ocorrência. Atualmente ele faz parte do Grupo de Atuação Especial de Investigação das Atividades Policiais.   À reportagem, Sinésio disse que estava inconformado com o número de tiros disparados contra Barbosa pelo promotor. "Foram 11 tiros e não oito como estão dizendo por aí. Isso é legítima defesa?" questionou. Barbosa foi enterrado às 17 horas de domingo, 6, no Cemitério da Paz, em Embu, na Grande São Paulo. Segundo familiares, ele trabalhava com motofrete e sustentava a família, ele deixa um filho de 7 anos e a mulher grávida de oito meses.   Ele estranhou o fato de cinco relógios, supostamente roubados, terem sido achados junto ao corpo do motoqueiro. "Não sabemos a origem desses produtos". Outro cunhado do homem assassinado, Celso Raimundo, contou à reportagem do Jornal da Tarde que na noite de sábado, Barbosa estava num bar em Taboão da Serra, onde mora, quando um amigo ligou pedindo ajuda pois a moto havia enguiçado no meio da rua. "Ele (Barbosa) pegou minha moto emprestada porque estava sem a dele e saiu correndo para socorrer".   À polícia, o criminalista afirmou que estava parado no semáforo com uma amiga, em um Honda Civic preto, quando Barbosa se aproximou e anunciou um assalto. Segundo Pereira, o rapaz teria pedido o relógio que estava em seu pulso e, logo depois, colocado a mão na cintura, como se fosse sacar uma arma. O promotor, que tinha acabado de sair do cinema, tirou a pistola da cintura e atirou contra Barbosa. Conforme seu relato, temendo uma reação do motoqueiro ou de algum comparsa que estivesse por perto, ele deixou o local.   De acordo com a Secretaria de Segurança Pública, dois moradores da região onde ocorreu a suposta tentativa de assalto confirmaram a versão contada pelo promotor. O JT apurou que as testemunhas que compareceram ao Deic foram levadas pelo próprio promotor - uma delas estava no ponto de ônibus no momento dos tiros. A informação de que Barbosa não tem passagem também foi confirmada pela polícia.   Reconhecimento   Na noite de domingo, duas pessoas procuraram a polícia e afirmaram ter reconhecido Barbosa nas fotos divulgadas pela televisão. Elas disseram ainda serem donas de dois dos cinco relógios supostamente roubados, que estavam junto ao corpo do motoqueiro na noite de sábado.   O Ministério Público Estadual, em nota, informou que a investigação passará a ser feita diretamente pelo procurador-geral do MP, Rodrigo Pinho. A corregedoria do MP também vai acompanhar o caso. A reportagem tentou entrar em contato com o promotor de Justiça, mas ele não foi localizado até a hora da publicação deste texto.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.