Família contesta versão de PM para morte em favela pacificada

Policial da UPP do Pavão-Pavãozinho alega que rapaz estava armado. Parentes dizem que ele foi baleado pelas costas

Pedro Dantas, O Estado de S.Paulo

16 de junho de 2011 | 00h00

Uma animosidade entre um jovem e um policial da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) pode ter sido a motivação para o assassinato de André de Lima Cardoso Ferreira, de 19 anos, ocorrido no Pavão-Pavãozinho, em Ipanema, na zona sul do Rio.

Esta é a suspeita da viúva do rapaz, a adolescente A.P.V.S., de 16 anos. "Um dia ele chegou muito chateado aqui em casa e disse que havia sido levado para a delegacia sem nenhum motivo e liberado depois. Ele pode ter reencontrado esse policial", afirmou a jovem, que está grávida de oito meses.

Ela disse ainda que a UPP foi um dos fatores que motivaram André a trocar a Favela do Dique, no bairro Jardim América, no subúrbio do Rio, pelo Pavão-Pavãozinho.

"Ele veio morar aqui depois da minha gravidez, porque sabia que o local estava calmo depois da UPP. Agora, eu vou seguir minha vida criando a filha, que foi a única coisa que ele deixou, mas quero que seja feita justiça", afirmou a garota.

Emprego fixo. Ontem, a Assessoria de Imprensa do Carrefour confirmou que André era empregado do hipermercado desde abril e trabalhava como operador de loja no Norte Shopping, em Pilares, na zona norte. "Ele era novo aqui e trabalhava no turno da tarde, mas todos nós ficamos sabendo do caso", disse um funcionário que preferiu não se identificar.

De acordo com a mulher da vítima e testemunhas, André foi comprar um lanche para a mulher e, quando voltava para casa, foi provocado por um policial militar da UPP, que estava à paisana em um bar da favela, por volta das 2h30 de domingo. Os dois discutiram, o policial sacou a arma e o rapaz tentou fugir, mas foi baleado nas costas. Na versão da Polícia Militar, ele trocou tiros com os policiais ao ser flagrado com um revólver e 63 papelotes de cocaína. Ele estaria com dois comparsas, que fugiram.

"Meu filho era o mais velho de nove irmãos e sempre deu o exemplo em casa. Não aceito essa história de que ele estava armado e vendia drogas. Acho que não tem nada estranho em alguém ir comprar um lanche de madrugada para a mulher grávida ou mesmo em um jovem ficar na rua neste horário. Meu filho tinha o direito de se divertir. Ele não tinha antecedentes criminais e sempre trabalhou. Quero justiça", disse a mãe de André, Micilene Maria de Lima.

A mãe e a viúva foram convidadas para uma reunião hoje com o comandante da UPP do Cantagalo-Pavão-Pavãozinho, Leonardo Nogueira. A Assessoria de Comunicação das UPPs informou que nenhum inquérito foi aberto na PM para apurar o caso.

Segundo a ONG Rede Contra a Violência, moradores do Pavão-Pavãozinho acusam policiais de desrespeitar jovens da comunidade. Foi a segunda morte em confronto registrada em favela pacificada.

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