Faltas de professores aumentam 20% em três anos nas escolas paulistanas

No ano passado, os 64 mil docentes da rede tiveram 1,8 milhão de faltas. É como se, na média, cada professor tivesse faltado 28 dias por ano

Paulo Saldaña, O Estado de S.Paulo

12 de agosto de 2013 | 02h11

O número de ausências de professores da rede municipal de São Paulo aumentou 20% entre 2009 e 2012, com alta nas faltas abonadas, justificadas e injustificadas. Apesar de representar metade dos registros, as licenças médicas tiveram queda no período. No ano passado, os 64 mil docentes da rede tiveram 1,8 milhão de faltas. É como se, na média, cada professor tivesse faltado 28 dias por ano.

Os índices são considerados "alarmantes" pela Prefeitura. Para o sindicato da categoria, a situação é reflexo das condições precárias de trabalho. Os dados foram obtidos pelo Estado pela Lei de Acesso à Informação e fazem parte de diagnóstico feito pela gestão do prefeito Fernando Haddad (PT).

O número de ausências descritas no ano passado soma 14% do total de 200 dias letivos de aulas obrigatórias. Apesar de haver um aumento no absenteísmo na rede em quatro anos, a pior situação ocorreu em 2011, quando foram registrados 1,87 milhão de ausências. De 2011 para 2012, houve uma pequena queda de 4% no total.

A situação é mais preocupante quando se olha para os tipos de faltas. Tirando 1,29 milhão de dias de ausências por licenças (dos quais 893 mil, ou 49,5% do total, são por motivo médico), os docentes, somados, faltaram 510,7 mil dias em 2012. Desse total, 399 mil (78%) foram abonadas, 57 mil (11%) justificadas e 53,8 mil (10%) ficaram injustificadas.

Entre 2009 e 2012, o número de faltas injustificadas cresceu 68%. Já as abonadas deram um salto de 74%. A consultora em educação Ilona Becskeházy lembra que o principal prejudicado com a situação é o aluno. "Tempo de aula é fundamental. É um problema grave no Brasil, não temos um controle social das faltas. Não há uma concepção de que é inaceitável faltar."

Motivos. Para o secretário municipal de Educação, Cesar Callegari, o quadro é preocupante. "Os números de faltas e ausências são alarmantes. Não pode ser considerado natural, embora parte das faltas sejam suportadas pela legislação", diz ele, ressaltando que este ano também já houve muitas faltas. "O nível elevado do absenteísmo é prejudicial à educação."

Cada servidor tem direito a dez faltas abonadas e seis justificadas. Na média, cada professor da rede abonou 6 faltas e teve 1,7 faltas justificadas e injustificadas no ano passado. "Sabemos que melhorar as condições de trabalho é uma forma de diminuir os números."

Para Cláudio Fonseca, presidente do Sindicato dos Profissionais em Educação no Ensino Municipal de São Paulo (Sinpeem), condições das escolas e deficiências da carreira explicam os dados. "Os índices apontam a mesma causa: a escola é espaço de desconforto, de adoecimento. Mesmo quando não consegue obter licença médica, o professor assume a falta."

Carreira. Fonseca e Callegari indicam a realidade profissional dos professores, como a necessidade de dupla jornada, como mais um motivador. Cerca de 11 mil professores do município são também da rede estadual, sem contar os que se dividem em escolas particulares ou da Região Metropolitana.

Franklin Valdemar do Nascimento, de 28 anos, é professor em uma escola estadual em Suzano, onde mora, e em uma creche municipal de Guaianazes, zona leste da capital. Ele já teve de faltar em uma das unidades para participar de atividades específicas na outra. "Em encontros de formação, que são importantes, tive que escolher e abonar."

Nascimento, formado em Pedagogia e pós-graduando em Matemática, nunca se licenciou nos 5 anos em que atua na rede municipal, mas já sentiu as dificuldades de faltas de docentes nas escolas onde atua. "Muita coisa deve ser mudada, por parte do governo e da sociedade. A carreira é desmotivadora, professores adoecem e ninguém acredita muito mais na escola."

*A reportagem foi atualizada às 15h26 para correção da média de faltas justificadas e injustificadas no ano passado

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