Falta energia e cirurgia é feita sob a luz de celulares

'A cirurgia demorou entre 20 e 30 minutos, mas me deu muito medo', disse a paciente

Chico Siqueira, Especial para o Estado,

12 Março 2013 | 18h06

ARAÇATUBA - Médicos do Hospital da Mulher, de Araçatuba, tiveram de usar a luz de telefone celular para iluminar uma cirurgia de laqueadura. A energia elétrica do hospital acabou e uma falha no gerador, no início da cirurgia, impediu que o procedimento fosse realizado normalmente. O caso aconteceu na última quinta-feira e está sendo apurado pelo Ministério Público Estadual. Em 2011, o centro cirúrgico do hospital foi interditado e a diretoria clínica teve de ser trocada depois que 16 bebês morreram.

A dona de casa Carina Michele Bueno, 32 anos, disse que passou os 30 minutos mais assustadores de sua vida. Depois de esperar desde dezembro e passar por psicólogos e assistentes sociais para fazer a laqueadura, ela estava pronta. "A cirurgia estava marcada para as 11 horas da manhã, quando então fui levada para a sala de cirurgia", contou. "Mas logo em seguida, depois de ser anestesiada, a luz acabou e o médico não teve como parar o procedimento", contou.

Segundo Carina, assim que a energia acabou "o médico ficou nervoso, chamou algumas pessoas e pediu para que religassem a luz novamente porque se tratava de um procedimento de emergência", contou. Enquanto esperava pelo gerador, enfermeiras que acompanhavam a cirurgia ligaram seus telefones celulares e deixaram a porta da sala aberta, para aumentar a luz.

"Ela colocaram três celulares na minha barriga e depois de se acalmar e me pedir para ficar tranquila, ele (médico) começou a cirurgia", contou. "A bateria de um dos celulares ainda acabou, mas eles conseguiram fazer operação", completou Carina. Segundo ela, a luz voltou logo após o procedimento ser concluído. "A cirurgia demorou entre 20 e 30 minutos, mas me deu muito medo", disse. Para Carina, o médico só continuou com a cirurgia porque pensava que a energia fosse restabelecida logo. "Acho que se ele soubesse que faltaria energia durante toda a cirurgia, ele teria adiado o procedimento, mas se isso ocorresse, não voltaria naquele hospital não. E não quero voltar lá tão cedo", diz.

O medo de Carina se justifica. Em 2010, durante a crise do hospital, ela de à luz seu filho no próprio quarto. "Não deu para eu ser levada para sala de cirurgia porque havia tantas mães esperando para dar à luz que meu filho teve de nascer no quarto mesmo", explicou.

Em nota, a Prefeitura de Araçatuba, que administra o hospital, informou que a queda de energia estava programada, mas que decidiu manter a agenda porque o gerador estava em funcionamento normal. Ao saber da falha, a prefeitura disse que mandou a CPFL religar o abastecimento. Segundo a Prefeitura, o gerador, que está quebrado foi mandado para o conserto.

Questionado sobre o assunto, o Ministério Público disse que devido ao fato de a paciente não ter sofrido qualquer dano, o caso, apesar de inusitado, está no contexto de uma ação civil pública ajuizada recentemente na qual pede a regularização de várias pendências constatadas no hospital.

Mais conteúdo sobre:
Cirurgia laqueadura

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.