Falta de tucanos afeta palmito

Pesquisa mostra que, sem a ave, sementes grandes do juçara não têm como ser dispersadas

GIOVANA GIRARDI, O Estado de S.Paulo

31 Maio 2013 | 02h04

O que a extinção localizada de tucanos em trechos da Mata Atlântica têm a ver com a oferta de palmito nos supermercados? Absolutamente tudo, diz um grupo de pesquisadores do Brasil, México e Espanha.

Em artigo publicado hoje na revista Science, os cientistas observaram que nos remanescentes da floresta onde a ave desapareceu há mais de 50 anos pela caça ou por desmatamento, as sementes do apreciado – e ameaçado – palmito juçara são menores do que nas matas que conservavam os tucanos.

 A relação entre as duas espécies ocorre porque a palmeira dá frutos de variados tamanhos, mas os grandes são comidos, e dispersados, somente por aves de bico também grande, como os tucanos. Nos locais onde o animal foi extinto, a palmeira acaba tendo de se contentar com as aves menores, como os sabiás, para ter suas sementes dispersas.

 Só que o pequeno bico do passarinho só consegue comer os frutinhos, de modo que apenas eles vão resultar em novas árvores – invariavelmente palmeiras que só darão sementes pequenas. A conclusão dos pesquisadores é que, com o passar de poucos anos (talvez um século – uma mixaria em termos evolutivos), a perda da fauna está funcionando como um vetor de seleção natural da palmeira.

 O problema, explica Mauro Galetti, pesquisador da Universidade Estadual Paulista (Unesp), de Rio Claro, e líder do estudo, é que os frutos pequenos são mais vulneráveis porque perdem água mais facilmente que os grandes. 

 Risco na seca. “Se a concentração cai a menos de 20% de água, não há germinação. Um perigo diante de cenários futuros de aquecimento global e redução das precipitações. Uma população inteira que dê só sementes pequenas, se ocorrer uma seca, pode não gerar nenhuma nova árvore”, afirma o biólogo. 

“No ano passado teve uma seca forte. Só de olhar para a mata já vimos que não germinou nada. Se isso se repetir no longo prazo, não vai mais ter palmito”, complementa.

 Ao longo de cinco anos, até o ano passado, os pesquisadores coletaram mais de 9 mil sementes de 22 populações de palmeiras, espalhadas em pequenos fragmentos e em áreas de floresta contínua da Mata Atlântica entre o Paraná e o sul da Bahia. 

 Em sete deles (seis em São Paulo e um no Rio de Janeiro) não havia mais sementes grandes. São justamente as áreas que sofreram o impacto humano há mais tempo. Olhando registros históricos os pesquisadores observaram que a partir do século 19 as florestas que haviam ali foram reduzidas para a produção de café e depois cana-de-açúcar. Nos mesmos locais, tucanos e outras aves grandes, como as arapongas, eram raros ou estavam localmente extintos. 

 Antes de concluir que a existência apenas de sementes pequenas estava ligada à ausência dos tucanos, os pesquisadores investigaram uma série de variáveis ambientais, como clima, fertilidade do solo, cobertura florestal. “Só a falta dos bichos fazia diferença”, diz Galetti.

Ele lembra que o palmito juçara já está fortemente ameaçado pela ação de palmiteiros ilegais nos fragmentos de mata que ainda existem. A palmeira, por lei, não pode ser cortada. Seu consumo só pode ocorrer em condições sustentáveis. “Mas o que vemos hoje é o oposto disso. Os parques da Serra do Mar têm mais palmiteiros e caçadores que turistas, pesquisadores e moradores juntos”, alerta.

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