Tulio Kruse/Estadão
Tulio Kruse/Estadão

Falta de médico causa demora e desistência em AMA da zona sul

Pacientes elogiam qualidade dos médicos em pronto socorro do Jardim Capela, mas atraso e desfalque fazem muitos abandonarem atendimento; consulta odontológica está suspensa

Tulio Kruse, O Estado de S. Paulo

08 Junho 2015 | 16h05

Atraso de uma hora para início do atendimento e falta de médicos na Assistência Médica Ambulatorial (AMA) do Jardim Capela, zona sul de São Paulo, fizeram com que ao menos dez pacientes fossem embora sem fazer as consultas na manhã desta segunda-feira, 8. Cerca de 40 pessoas estavam na fila da AMA e da Unidade Básica de Saúde (UBS) do bairro durante a primeira hora de funcionamento, e os atendentes de saúde não sabiam dizer se pediatras e clínicos-gerais estariam disponíveis. A unidade é obrigada a oferecer dois profissionais de cada especialidade em prontidão, segundo as regras estabelecidas na descrição técnica da rede assistencial na região. 

Logo após o início do atendimento com o clínico-geral, com cerca de duas horas de atraso, as consultas tiveram de ser interrompidas. O médico precisou atender emergências e acompanhar pacientes até o hospital mais próximo, e a falta de um substituto paralisou os trabalhos por cerca de uma hora. Um dos poucos serviços que funcionavam normalmente, o exame de sangue agendado tinha cerca de 50 minutos de espera para pacientes que chegaram antes das 7h. A reportagem do 'Estado' acompanhou o atendimento médico na AMA e na UBS do Jardim Capela por cerca de cinco horas nesta manhã. Se você teve um problema parecido, mande seu relato por WhatsApp para os números (11) 9-7069-8639 e (11) 9-8960-4397.

O motorista Welton Dias, 31, chegou à unidade por volta das 8h15 para tratar uma dor nas costas que lhe incomoda há cerca de dois dias. Desistiu de esperar por volta das 10h, quando o único clínico-geral continuava ausente após sair com uma ambulância no transporte de um paciente em estado grave. "O atendimento aqui é complicado, por isso mesmo sempre evito de vir a não ser que seja muito necessário", conta Dias. 

A empregada doméstica Helena, 51, que não quis ter seu sobrenome divulgado, disse que passava pelo mesmo problema. Após passar mais de duas horas na fila do clínico-geral, resolveu voltar para casa e tentar novamente mais tarde. "Não fui trabalhar para vir aqui", ela reclama. "Hoje o atendimento está péssimo."

Outros quatro pacientes saíram com a mesma reclamação, mas não quiseram dar detalhes à reportagem. O setor de pediatria da AMA também tinha atrasos, o que levou a mais desistências.

Apesar da demora, alguns pacientes elogiaram a qualidade dos médicos. Na fila desde 6h15, Liliane dos Santos trouxe sua filha de  16 anos para uma consulta com o clínico-geral. Um pequeno caroço cresceu próximo ao olho esquerdo da menina e ela começou a ter problemas de visão. "O clínico teve de sair para atender a uma emergência, mas ele é muito gentil e prestativo", afirmou Liliana, às 9h30, logo após ser atendida.

Na quarta-feira da semana passada, dia 3, Cristiane Ribeiro, 25, chegou às 8h e terminou seu atendimento às 12h27. Com uma gravidez de oito meses, ela fez um exame no dia 13 de maio que apontava um sangramento interno. Quando foi recebida pelo médico, na semana passada, ouviu que o resultado já havia vencido e que ela precisaria fazer o exame novamente. Saiu da unidade elogiando o atendimento. "Eu geralmente gosto dos médicos que me atendem, às vezes a fila acaba demorando mas o serviço é bom", diz Cristiane.

Consultada, a Secretaria de Saúde não se manifestou até o fechamento desta reportagem.

Pediatria. Quando o primeiro pediatra entrou na unidade, por volta das 8h30, cerca de quatro pacientes já haviam desistido de suas consultas. A auxiliar de limpeza Ana Maria Ferreira, 40, conta que foi orientada por uma enfermeira a procurar outro posto de saúde. Seu filho de 9 anos tinha tosse e febre, e como já havia apresentado dor de garganta grave ela resolveu levá-lo à AMA. "Estou preocupada mesmo é com a dor de cabeça porque ele já tem problemas de vista e eu não sei se isso é algo mais grave", diz Ana Maria. Ela afirma que em outras oportunidades conseguiu ser bem atendida no mesmo lugar.

Com consulta agendada há mais de dois meses, o filho de Everaldo do Nascimento teve sua consulta concluída após cerca de três horas na fila. Na mesma unidade de saúde, o menino de 10 anos fez um exame de sangue no dia 2 de abril. O resultado ficou pronto hoje e ainda não é possível diagnosticar seu problema, que tem como sintomas vômito e dor no peito. "Estamos esperando ainda o resultado de outro exame, e depois disso precisamos marcar um retorno ao médico", diz Everaldo.

Sem dentista. O primeiro da fila, José dos Santos, 28, chegou às 5h30 para marcar uma consulta com o dentista da UBS. Foi também o primeiro a ir embora. Uma reforma na sala de odontologia, para instalação da terceira cadeira no consultório, impossibilita o atendimento. Auxiliar de almoxarifado, à espera de um diploma como operador de máquina, Santos esperou cerca de uma hora e meia até a abertura da unidade. "Eu não estou trabalhando, por isso queria vir aqui para economizar dinheiro", ele conta. A administração não informou qual é o prazo para o serviço voltar ao normal.

Leia na íntegra a resposta da Secretaria Municipal de Saúde: 

A Secretaria Municipal da Saúde esclarece que a UBS Jardim Capela está em obras para se tornar uma Unidade Básica de Saúde Integral, com ampliação do horário de atendimento, readequação no processo de trabalho e atendimento com mais qualidade. Durante as obras, os profissionais de odontologia não deixaram de atender. Eles foram encaminhados para outras unidades da região e os pacientes que buscam atendimento emergencial são avaliados por um profissional médico, que toma as primeiras condutas e direciona para os serviços que possuem esta especialidade. 

 

Na AMA, atualmente há déficit de um pediatra. A OSS (Organização Social de Saúde) Cejam, que administra a unidade, está com processo de seleção aberto para este profissional.

 

Em todos os casos, os pacientes são atendidos pelos outros médicos e passam por uma classificação de risco que avalia a gravidade e prioriza os atendimentos. Em relação ao atraso do clínico-geral, a gerência da unidade fará uma avaliação da situação. 

 

A secretaria ressalta que novas medidas estão sendo adotadas pela Prefeitura para repor médicos nas unidades administradas pelas OSS, como a exigência de equipe mínima de profissionais durante todo o período de atendimento e pagamentos e descontos por tipo de serviço, ações que não estão no modelo vigente, adotado desde 2009. A falta de médicos é um problema que afeta a saúde em todo país.

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