Alex Silva/AE
Alex Silva/AE

‘Falei: não largue o carro na rua pelo amor de Deus’

Clientes ficam indignados ao descobrir que manobristas deixaram seus veículos em ruas escuras; empresário diz estar ‘95% certo’

William Cardoso, O Estado de S. Paulo

07 Outubro 2011 | 21h27

SÃO PAULO - "Ainda falei para ele não largar o meu carro na rua, pelo amor de Deus, porque tinha deixado meus documentos e meu notebook lá dentro. Ele não pode ter feito um negócio desses", disse o consultor Jamil Farah, de 41 anos, após ser avisado pela polícia que o manobrista em quem confiou abandonou seu carro em uma via escura a 300 metros do bar onde se divertia com a namorada. Ele foi um dos motoristas que descobriram o golpe dos valets na noite da última quinta-feira e, como os outros, ficou revoltado.

Além da raiva, não faltou expressão de espanto entre aqueles que, após a abordagem policial, passaram a procurar seus veículos nas ruas da Vila Madalena. "Nada é mais confortável do que deixar com alguém na porta do bar e saber que vai para o lugar certo. Mas, aí, você descobre que foi lesado. É decepcionante", diz o administrador de empresas Alexandre Delgado, de 36 anos.

A esteticista Deandra Yaroussanlian, de 27 anos, apostou nos valets por segurança própria. "Eu tenho medo de andar até o estacionamento no fim da balada por causa dos assaltos, então deixo com o manobrista, porque sei que ele vai me trazer o carro na porta depois. Mas aí você vê que o sujeito faz isso (deixa o veículo abandonado)."

A publisher Juliana Medeiros, de 23 anos, também se divertia ontem na Vila Madalena, e explicou por que se tornou refém dos manobristas de porta de bar. "O problema é que o valet acaba sendo a única saída. Deveria ter um espaço público onde se poderia deixar os carros em segurança."

Vice-presidente da Federação de Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares do Estado de São Paulo (Fhoresp), Edson Pinto diz que os estabelecimentos também são vítimas dos maus profissionais, porque respondem solidariamente por eventuais danos aos clientes. Mas ele também critica a legislação. "A lei foi concebida para privilegiar as grandes redes de estacionamento. Os estacionamentos são pequenos, caros, e não há vaga para todos."

Valets. O empresário Luiz Claudio Medeiros foi pego de surpresa nesta sexta-feira, 7, durante a operação policial. Proprietário do Villa’s Park, trabalha há 15 anos no bairro com o serviço de valet e diz que seus manobristas deixam os carros nas ruas em dias movimentados, porque seus dois estacionamentos ficam lotados. "Sei que não é uma coisa correta, mas perto de alguns estou 95% certo." Ele diz também que procurou a Subprefeitura de Pinheiros para regularizar a situação, mas não obteve resposta.

Medeiros afirma que o negócio poderia se tornar inviável se procurasse um terceiro imóvel, que usaria por apenas dois dias na semana. "O valor do aluguel na Vila Madalena é um absurdo."

O empresário diz que não voltará a colocar carros na rua. "Se for pego novamente, serei indiciado. A orientação é para que os funcionários deixem de receber os carros assim que meus estacionamentos ficarem lotados."

Segundo a polícia, há uma guerra entre os próprios valets por espaço nas ruas da Vila Madalena. Cada empresa guarda entre 50 e 60 carros por noite e os manobristas recebem, em média, uma diária de R$ 50.

Mais conteúdo sobre:
valets clientes manobrista

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.