Leonardo Soares/AE–8/4/2011
Leonardo Soares/AE–8/4/2011

Faculdades travam trânsito na vizinhança

À noite, em várias regiões da cidade, estudantes reunidos em bares e ruas dificultam passagem de carros, fazem barulho e infernizam a vida de vizinhos

Renato Machado, O Estado de S.Paulo

15 de maio de 2011 | 00h00

Fim de dia, pessoas com pressa de chegar em casa e congestionamento de mais de 100 quilômetros. A cena, já corriqueira, é agravada para motoristas que precisam passar perto de algumas universidades, onde filas de carros chegam a afetar vias a 600 metros de distância. Isso porque estudantes comemoram o encerramento das aulas nos bares do entorno das faculdades e levam a festa às ruas, com carros parados irregularmente, de porta-malas aberto para ampliar o som.

Um dos locais mais afetados é a Avenida Doutor Adolpho Pinto, na Barra Funda, zona oeste de São Paulo, endereço de uma unidade da Uninove. Praticamente todos os dias - e principalmente às sextas-feiras -, o local vira uma balada a céu aberto e estudantes quase bloqueiam a rua, ligação para quem quer seguir para a região central ou acessar o Elevado Costa e Silva (Minhocão).

Duas das três faixas da via ficam tomadas de pessoas e veículos parados em lugar proibido. Motoristas de automóveis e ônibus precisam circular devagar para não atropelar estudantes, que a todo momento atravessam de um lado para o outro. A fila afeta até o trânsito da Avenida Pacaembu, que fica a cerca de 700 metros do local.

"O Minhocão vai fechar daqui a pouco e não consigo andar 100 metros", disse o diretor de vendas Júlio César de Paula Pedroso, de 32 anos, às 21h20 de uma sexta-feira - o elevado fecha às 21h30. "Nada contra aproveitarem a sexta à noite, mas sem prejudicar os outros. A aula da noite não termina tarde, após as 22h? O que já estão fazendo aqui?".

A reportagem do Estado flagrou pelo menos três carros atravessados no meio da rua. Jovens ficavam em volta para aproveitar a música e retirar cerveja dos isopores que ficavam no porta-malas. A Polícia Militar foi chamada e três viaturas chegaram ao local para atender a ocorrência, autuando os veículos. Um deles estava com a documentação irregular e seria levado para um pátio.

"Eu estava estacionado de forma errada e a documentação está atrasada. Mas a PM também não pode chegar dizendo "cala a boca"", diz o estudante de Engenharia Civil Edvaldo Santos Oliveira, de 29 anos. Os policiais afirmam que não houve desrespeito.

Um policial que atendeu a ocorrência relatou que a PM vai constantemente ao local em razão de reclamações de vizinhos. São multados veículos mal estacionados, com som alto e também os bares. Mas o PM admite que não consegue tirar os estudantes da rua.

Um dos atendentes do bar Castelinho diz que eles começaram a vender apenas cerveja no copo para evitar que as pessoas saiam para a rua com a garrafa e turmas se aglomerem para dividir a bebida. "A Prefeitura já fechou vários bares aqui. Não é culpa nossa se eles ficam no meio da rua", diz.

Mackenzie. Outro ponto com bastante tumulto é na Rua Maria Antônia, perto do Mackenzie, na Consolação. A aglomeração de estudantes nos bares começa a partir de quarta-feira, mas sexta é mesmo o pior dia. A música vem dos estabelecimentos. Os carros atrapalham o trânsito ao parar em fila dupla e, como parte das calçadas é ocupada por mesas, as pessoas acabam indo para a rua.

"Moro lá trás (na Rua Itambé) e mesmo assim escuto a música e os gritos desses estudantes. Já chamamos a polícia, eles vêm aqui, mas na semana seguinte tudo se repete", diz a gerente de marketing Ana Paula Izidoro, de 37 anos. Ela conta que, quando os bares desligam a música, os donos dos carros assumem a função de animar a festa improvisada.

Os motoristas também reclamam que estudantes deixam latas e garrafas no asfalto, que quebram e podem furar os pneus. "E tem uns que ficam bêbados e fazem palhaçada. Só venho por aqui quando combino de pegar minha esposa no supermercado da esquina", diz o cirurgião dentista Álvaro Carvalho, de 46 anos.

Estudantes da FMU também prejudicam o trânsito na Avenida Liberdade, ligação do centro com a zona sul da capital. Durante a meia hora em que a reportagem esteve no local, numa noite de sexta-feira, dois carros da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) passaram ali, mas não pararam para orientar o trânsito ou desobstruir a via. Na Mooca, os transtornos são provocados de segunda a sexta-feira por estudantes no entorno da Universidade São Judas Tadeu, na Rua Taquari.

A CET informou, em nota, que a orientação a seus agentes é que fiscalizem as regras do código de trânsito e solicitem apoio da PM se necessário.

A PM, por sua vez, disse que sempre respeita o direito de ir e vir das pessoas. "Quanto aos frequentadores dos bares próximos ao Mackenzie, sempre que ocorre algum fato contra a norma vigente e a Polícia Militar é acionada, tomamos as providências legais cabíveis."

INFRAÇÕES

Lei de eventos

A interrupção do tráfego, seja por acidente, eventos ou manifestações, precisam ser ressarcidas ao município. O valor é calculado levando em conta a quantidade de horas em que a via ficou fechada e a mão de obra usada (agentes da CET). A dificuldade nesse caso é responsabilizar uma única pessoa ou entidade.

Estacionamento irregular

Parar em locais e horário de estacionamento e parada proibidos é uma infração grave, com multa de R$ 127,69 e cinco pontos na carteira de habilitação. O veículo também deve ser removido.

Barulho

Após a 1 hora, bares precisam ter isolamento acústico. Antes desse horário, é preciso respeitar um nível de emissão de ruído, segundo o zoneamento. A multa pode chegar a R$ 28 mil.

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