Hélvio Romero/AE
Hélvio Romero/AE

Fábricas 'de bairro' que resistem na capital

Metrópole perdeu maioria das indústrias, mas algumas continuam fiéis às suas raízes

Edison Veiga e Rodrigo Burgarelli, O Estado de S.Paulo

13 de setembro de 2012 | 03h05

São Paulo já foi movida pela indústria. Nas primeiras décadas do século 20, milhares de imigrantes vinham anualmente para a capital paulista, a maior parte em busca de emprego nas fábricas do Bom Retiro, da região da Luz ou nos bairros industriais mais novos, como a Mooca e a Barra Funda. Hoje, a indústria já não é a atividade mais importante da cidade - o impulso vem principalmente do setor de serviços -, mas ainda sobraram fábricas tradicionais de mais de meio século de existência na capital. 

Em 1920, a indústria representava 55% de toda a riqueza produzida na cidade, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Atualmente, a metrópole se consolidou como polo de serviços, e as indústrias representam apenas 17% da riqueza da capital. 

Mas, em bairros industriais tradicionais, é possível encontrar estabelecimentos que, há décadas, se mantêm sob controle da mesma família. 

Um deles é a Dimep. Fabricante de relógios de ponto, outros marcadores e sistemas de controle de acesso, a empresa começou em 1936, em uma garagem da Rua Cônego Eugênio Leite, em Pinheiros, na zona oeste. Depois, funcionou em dois endereços na Rua Cardeal Arcoverde, no mesmo bairro, até se mudar para a Avenida Diógenes Ribeiro de Lima, no Alto de Pinheiros. Desde 2001, está na Avenida Mofarrej, na Vila Leopoldina. Sempre em São Paulo, portanto. Sempre na zona oeste.

"Para ser sincero, nos anos 1970 até cogitamos sair, sim, da cidade. Mas, como não somos uma indústria convencional, já que vendemos diretamente ao consumidor final e prestamos assistência técnica, era importante continuar próximo do maior mercado, que é São Paulo", explica Dimas de Melo Pimenta II, presidente da empresa e filho do fundador - que hoje tem 1 mil funcionários.

A vocação familiar também resiste ao tempo. Dimas começou a trabalhar com o pai, aos 15 anos. Hoje tem 63. Seu braço direito e vice-presidente da Dimep é Dimas de Melo Pimenta III, seu filho, de 36 anos. "E, quem sabe, um dia a empresa terá ainda meu neto, Dimas de Melo Pimenta IV", sonha ele.

Ligação. Considerada a maior metalúrgica a funcionar dentro da cidade de São Paulo, a Lorenzetti nunca saiu da Mooca, na zona leste. Até já teve unidades em outras cidades e Estados, mas, em um movimento contrário ao de muitas empresas, hoje concentra todo o parque industrial em cinco quadras do bairro paulistano. 

Fabricante de produtos que vão de duchas a lâmpadas, a Lorenzetti foi fundada em 1923 e emprega 3.619 pessoas. "São 90 anos de história, 90 anos de Mooca. É uma ligação muito forte", afirma Eduardo Coli, vice-presidente da empresa. 

Ele conta que, há algumas décadas, a Lorenzetti chegou a analisar uma transferência para outro Estado, que oferecia incentivos fiscais. "Mas, no fim, entendemos que não valia a pena. Porque não é barato transferir uma fábrica e temos nossa história aqui", explica. "Não nos arrependemos."

Também tradicional, uma das empresas que saíram da Mooca nos anos 1970 foi a Brinquedos Bandeirante, fundada em 1952. "Precisávamos expandir nossa área fabril", explica Alexandre Branco, gerente de Marketing. A fábrica se mudou, então, para Ferraz de Vasconcelos, na Região Metropolitana de São Paulo. Já a parte administrativa continua em São Paulo - os escritórios são no bairro de Vila Ema, zona leste.

Outra fábrica "de bairro" que continua na ativa é a dos grampos Teimoso. Ela funciona no Tucuruvi, na zona norte, desde a década de 1960. "Quem começou foi o meu sogro, Antônio Barrocal, que nasceu em Taquaritinga e veio abrir a fábrica aqui. Ele tocou o negócio por 4 anos e depois eu assumi, em 1967", diz o diretor comercial João de Gouveia Rodrigues. Segundo ele, toda sua família é da região do Tucuruvi, Água Fria e Tremembé, bairros da zona norte. 

Ele afirma que o auge da produção foi na década de 1970, quando trabalhavam ali 40 funcionários que produziam mais de 700 mil grampos por dia. "Até hoje não entendi por que não consigo mais vender isso. Hoje tem muito mais mulheres no Brasil do que na época, mas elas gastam muito menos em grampo de cabelo. Agora elas colocam na cabeça qualquer coisa que entra na moda, porque aparece na novela ou alguma coisa assim", lamenta. Atualmente, são 18 funcionários e 250 mil grampos diários - parte da produção é exportada.

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