Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Extinção e encurtamento de linhas de ônibus afetam 60 mil em SP

Alteração que será colocada em prática na zona leste neste sábado vai atingir 46 itinerários

Caio do Valle, O Estado de S. Paulo

25 de outubro de 2013 | 09h11

SÃO PAULO - Considerada há anos uma das regiões com o pior transporte público da capital paulista, a chamada Área 4 da São Paulo Transporte (SPTrans), que atende parte da zona leste, sofrerá uma grande mudança nos itinerários de ônibus neste sábado, 26. Ao todo, 46 linhas que atualmente atendem o local serão alteradas, atingindo diretamente cerca de 60 mil passageiros, segundo um cálculo da Prefeitura.

Itinerários compridos, que ligam bairros distantes do centro, como Cidade Tiradentes, diretamente à região central, serão extintos ou seccionados, obrigando os usuários a fazer baldeações em pontos intermediários. É o caso da linha 3539-21 (Terminal Cidade Tiradentes-Terminal Parque Dom Pedro II), que será suprimida e substituída por dois novos serviços: 407U-10 (Term. Cidade Tiradentes-Metrô Itaquera) e 4310-10 (Estação de Transferência Itaquera-Term. Parque Dom Pedro II).

Neste caso, os passageiros solicitam que as linhas 3129-10 (Conjunto Manuel da Nóbrega-Terminal Parque Dom Pedro II), 3222-10 (Jardim Marília-Terminal Parque Dom Pedro II) e 3407-10 (Inácio Monteiro-Terminal Parque Dom Pedro II) não deixem de existir.

Sem contrapartidas. Em entrevista ao Estado no início da semana, o professor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP) Mauro Zilbovicius disse que a Prefeitura erra ao extinguir linhas antes de oferecer boas contrapartidas aos passageiros afetados, como novos corredores expressos, que tornariam as viagens até o centro mais rápidas e confortáveis. "Essas mudanças pontuais tendem a piorar a avaliação dos usuários, apesar de a SPTrans ver algum benefício econômico."

Na avaliação dele, os ganhos de velocidade dos ônibus conquistados com a implantação de mais de 200 km de faixas exclusivas (uma das principais marcas do primeiro ano da gestão Haddad no setor de transporte público) ainda não são suficientes para promover alterações assim. Seriam necessários corredores do tipo BRT ("bus rapid transit", na sigla em inglês), segregados e à esquerda nas avenidas. Esses dispositivos também oferecem a possibilidade de os ônibus se ultrapassarem, tornando-os mais ágeis e pontuais.

Melhoria do sistema. A SPTrans se defende, argumentando que "todas as mudanças realizadas têm como objetivo a melhoria do sistema" e a finalidade de "beneficiar os passageiros com viagens mais rápidas e confortáveis". Além disso, argumenta a empresa municipal, "as mudanças fazem parte de uma necessária reestruturação da rede que irá melhorar a oferta de ônibus e o desempenho de todo o sistema".

Especificamente sobre as alterações na Área 4, a SPTrans informou que pelas linhas modificadas são transportadas aproximadamente 200 mil pessoas por dia útil. "Estima-se que 30% destes usuários tenham alguma mudança em seu trajeto após a implantação" deste sábado, revelou em nota.

A Prefeitura divulgou que no sábado haverá 16 alterações de itinerário, 14 seccionamentos e 10 substituições na Área 4. Além disso, "quatro linhas terão alteração apenas no seu número de operação e uma foi criada". As linhas de trólebus da região não foram afetadas pelas mudanças. A lista com as mudanças pode ser vista no site www.sptrans.com.br.

Uma pesquisa recente da Associação Nacional dos Transportes Públicos (ANTP) mostra que só 35% dos usuários da região da Área 4 achavam o serviço de ônibus "bom ou excelente" em 2012, ante 44% no ano anterior. Ou seja, a percepção de qualidade dos coletivos na região vem caindo ano a ano.

Para piorar o quadro, a empresa Itaquera Brasil, uma das viações que compunham o Consórcio Leste 4, concessionária responsável pela operação das linhas da região, deixou de operar no início deste mês, após a Prefeitura decretar a sua caducidade, devido a "sucessivas falhas no serviço prestado à população".

Investigação. O Ministério Público Estadual informou na terça-feira, 23, que solicitou à SPTrans explicações acerca dos motivos que têm levado à extinção e ao encurtamento de dezenas de itinerários de coletivos nos últimos meses. Isso, depois de muitos passageiros se dizerem prejudicados pelas alterações colocadas em prática nos últimos meses em outros bairros da cidade.

Na Penha, na zona leste, um grupo de moradores chegou a entrar com uma ação civil pública na Justiça cobrando o regresso de dois serviços extintos no mês passado. Até o fim da semana passada, a SPTrans informou ter cancelado 80 linhas neste ano.

O Movimento Passe Livre (MPL), notório por liderar as manifestações de junho que culminaram no rebaixamento do preço das tarifas de ônibus e metrô, abraçou a causa de moradores de bairros distantes descontentes com o fim de algumas linhas e promoveu atos nesta semana reivindicando a volta desses serviços.

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