Expulsos do Jd. Romano tentam criar um bairro

600 pessoas que viviam em região alagada por enchentes ocupam área na Vila Curuçá

Diego Zanchetta, O Estado de S.Paulo

15 de maio de 2010 | 00h00

Cinco meses após o Jardim Romano ser inundado por enchentes, 139 famílias que perderam suas casas tentam agora recomeçar suas vidas em um terreno particular ocupado na Vila Curuçá. Os dois bairros ficam na zona leste.

Entidades ligadas ao movimento dos sem-teto ajudam as famílias a erguer barracos de madeira e banheiros coletivos, além de controlar quem entra no local. O barulho ou som alto é proibido após as 22h, para não incomodar os vizinhos. A luz elétrica já ilumina as ruas da ocupação, onde entram todos os dias carros lotados de donativos e de cestas básicas arrecadados pelo Movimento Terra Livre.

As famílias dizem que o bolsa-aluguel de R$ 300 mensais pagos pela Prefeitura é insuficiente para alugar um imóvel. "Aqui foi a única opção que nos restou. Com R$ 300 não consigo alugar nem quarto em cortiço", reclama a dona de casa Eliete Jesus Almeida, de 36 anos.

"Ficamos desabrigados no dia 8 de dezembro e até agora nenhuma moradia foi construída", afirma Renata Nere, de 27 anos, que vivia havia 9 no Jardim Romano, apelidado pelos moradores de Jardim Pantanal. Renata só falou com a reportagem após autorização das entidades que coordenam a ocupação. "Existe uma comissão de imprensa", disse.

Polícia. Os vizinhos no entorno solicitaram a presença da PM, que mantém duas viaturas em frente à ocupação. O terreno onde estão as famílias do Jardim Romano é cercado por sobrados residenciais e por um conjunto de edifícios que está prestes a ser inaugurado.

"Por um lado eles acabaram com um matagal que servia de esconderijos para os bandidos, mas as famílias também viraram um problema ambiental, já que as fossas que eles estão construindo estão ligadas direto ao Córrego Água Vermelha, que passa atrás do terreno", afirmou Plínio de Oliveira Sales, de 51 anos, vizinho da área invadida.

Outra preocupação dos vizinhos é de que a ocupação cresça em direção ao Parque Mãe Preta, uma das poucas áreas verdes da região, onde funciona também um clube-escola.

Desapropriação. O terreno ocupado tem 10 mil metros quadrados e pertence a um agricultor da região, mas foi declarado de utilidade pública pela Prefeitura em fevereiro. É um dos nove espaços nos quais o governo pretende construir até 5 mil moradias para os desabrigados de bairros localizados na várzea do Rio Tietê, no extremo leste da cidade. No local está prevista a construção de um conjunto habitacional com 228 apartamentos, que serão financiados pela Companhia Metropolitana de São Paulo (Cohab), empresa da Prefeitura.

A ocupação fica a nove quilômetros da área alagada. Nas ruas do Jardim Romano, os escombros das casas demolidas ainda estão amontoados em canteiros improvisados. Hoje, 3.753 famílias recebem o bolsa-aluguel até que fiquem prontas as novas moradias, segundo a Secretaria Municipal de Habitação.

Reintegração. No início deste mês, o proprietário do terreno entrou com um pedido de reintegração de posse na Justiça. Segundo a Prefeitura, isso ocorreu porque a área ainda está em nome do agricultor. A expectativa é que a Justiça julgue a solicitação nos próximos dias. O prazo previsto para a construção das moradias aos desabrigados de regiões alagadas é de dois anos, a partir da liberação do terreno, de acordo com o governo municipal.

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