Marcos de Paula/AE
Marcos de Paula/AE

Exposição destaca os desafios das brasileiras

Biblioteca Nacional abre acervo para lembrar o papel da mulher na história

Tiago Rogero / RIO, O Estado de S.Paulo

06 Julho 2011 | 00h00

"Queremos a nossa emancipação - a regeneração dos costumes. Queremos reaver nossos direitos perdidos", escrevia, em 1873, Francisca Senhorinha da Motta Diniz. "Queremos ser companheiras de nossos maridos e não escravas", arrematava a professora de Campanha, no Sul de Minas, em um dos primeiros manifestos feministas do Brasil. A citação, publicada no jornal de Francisca, O Sexo Feminino, e hoje colocada em uma vitrina na Biblioteca Nacional, no Rio, é um dos principais documentos da mostra Brasil Feminino. A exposição lembra as dificuldades e avanços na luta das mulheres por reconhecimento.

Fotografias, pinturas, documentos e recortes de jornais e revistas contam a trajetória feminina no Brasil por meio de suas protagonistas - de Carlota Joaquina a Dilma Rousseff. São 150 peças do acervo da Biblioteca Nacional, algumas raras. É o caso de uma reprodução da Lei do Ventre Livre, que concedeu liberdade aos filhos de escravos, assinada em 1871 pela princesa Isabel.

O curador da exposição, Marcus Venicio Ribeiro, conta que a ideia surgiu porque em 2011 completam-se 140 anos desde que a liderança do País, então Império, foi assumida pela primeira vez por uma mulher, a própria princesa Isabel, durante viagem de d. Pedro II à Europa. "Além disso, nosso acervo nunca havia criado uma exposição sobre o tema", conta o curador.

Linha do tempo. As peças estão dividas em quatro momentos, "mas nada muito rígido", como explicou o curador: tempos coloniais, século 19, século 20 (até a realização das eleições diretas e a Constituição de 1988) e tempo presente. Ao longo de cerca de 70 metros de percurso, quem for à exposição poderá conferir as peças em ordem cronológica, separadas em ambientes. Pela primeira vez, uma exposição da Biblioteca Nacional vai ficar aberta também aos sábados, domingos e feriados.

Na passagem de ambiente da época do Brasil Colônia para o século 19, panos brancos dispostos do teto ao chão, "que deveriam lembrar lençóis", estampam frases e ditados populares que mostram a "inferiorização da mulher", explicou Ribeiro. "Onde há galo, não canta galinha"; "Menina que sabe muito é menina atrapalhada; para ser mãe de família, saiba pouco ou saiba nada" são algumas delas. "Para ir de uma sala a outra, as pessoas são obrigadas a esbarrar nesses panos. É uma espécie de provocação, de ter esfregado na cara o preconceito", afirma o curador.

Conquistas. Na sala do século 20, uma linha do tempo marca momentos importantes da trajetória feminina. As conquistas de Maria Esther Bueno no tênis, nas décadas de 1950 e 60; a histórica entrevista de Leila Diniz ao Pasquim, em 1969; a morte da estilista Zuzu Angel, em 1976, e a quinta vez que a jogadora de futebol Marta foi eleita como a melhor do mundo, em 2010, são alguns exemplos.

Na sala das artes, decorada como uma discoteca, homenagens para atrizes, cantoras e artistas plásticas, como Rita Lee, Fernanda Montenegro, Dalva de Oliveira e a soprano Bidu Sayão. Norma Bengell, de 76 anos, primeira atriz brasileira a aparecer nua em um filme, em 1962, se disse muito feliz pela homenagem, e comentou sua participação nas conquistas da mulher brasileira ao longo dos anos. "Fui exilada política, lutei pela anistia e pelos direitos da mulher. Acho que ainda há muito o que evoluir, mas a luta agora é outra: há muita pobreza no Brasil."

A também homenageada e atriz Ittala Nandi, de 69 anos, concordou que ainda há muito o que conquistar, sobretudo evitando-se a "imitação machista". "Femininas e com beleza, "sin perder la ternura, jamás"", afirmou Ittala.

Serviço

BRASIL FEMININO. BIBLIOTECA NACIONAL. AVENIDA RIO BRANCO, 219, CENTRO, RIO DE JANEIRO. ESPAÇO CULTURAL ELIZEU VISCONTI. DE SEGUNDA A SEXTA-FEIRA, DAS 10H ÀS 17H. AOS SÁBADOS, DOMINGOS E FERIADOS, DAS 12H ÀS 17H. A EXPOSIÇÃO VAI ATÉ 26 DE AGOSTO. GRÁTIS

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