DANIEL TEIXEIRA|ESTADÃO
DANIEL TEIXEIRA|ESTADÃO

'Explosão de blocos de rua é resposta a carnaval confinado de São Paulo'

Para o etnomusicólogo Alberto Ikeda, modelo tradicional de sambódromo e clubes na capital se tornou institucionalizado demais o que levou as pessoas a buscarem outras formas de se expressar

Giovana Girardi, O Estado de S. Paulo

07 Fevereiro 2016 | 18h25

“São Paulo nunca foi o túmulo do samba, mas nos últimos anos têm encontrado com os blocos de rua uma nova forma de expressar o espírito carnavalesco que estava meio escondido.” A declaração é do etnomusicólogo Alberto Ikeda, professor do Instituto de Artes da Unesp, em São Paulo. Filho de japonês casado com uma baiana, é um dos principais estudiosos do carnaval brasileiro. Para ele, a explosão do carnaval de rua na capital, que neste ano contou com 355 blocos registrados pela Prefeitura, é uma resposta ao que ele chama de “carnaval confinado” do sambódromo e dos clubes. Veja na entrevista a seguir:

Por que o sr. acha que houve essa retomada do carnaval de rua em SP?

Em parte é porque as pessoas querem retomar o espírito carnavalesco, de recuperar um domínio não só do espaço público, de poder se expressar carnavalescamente. Vemos isso não só nos blocos, nas no Movimento pelo Passe Livre, na ocupação das escolas. É um espírito de questionamento da sociedade. Em outra parte é porque as únicas opções que as pessoas tinham há até alguns anos era ir para o sambódromo, ou a um clube, ou sair de São Paulo. Esse carnaval foi confinado, institucionalizado e, de certo modo, é muito mais controlado. Este tipo de carnaval vem perdendo o caráter de espontaneidade, e tudo isso fez as pessoas começarem a buscar outra forma de poder se expressar. É só ir na 25 de março, compra uma mascarazinha por 5 reais, uma gravata borboleta custa 7, rasga uma camiseta velha e sai no carnaval, com amigos, com gente do bairro, da escola. 

Pode levar ao fim do carnaval das escolas?

Acho que começa a entrar num sistema de refluxo, num momento de saturação. Com a crise econômica que a gente vive hoje, a parte plástica das escolas está afetada, na comparação com outros anos. No Rio de Janeiro se fala em investimentos de R$ 12 milhões. Em São Paulo, R$ 6, 8 milhões. Mesmo tendo a contrapartida de investimento dos Estados, a disputa de quem é mais luxuoso fica muito cara. Ou volta a fazer carnaval mais simples, ou acaba recorrendo a esses patrocinadores. O movimento do Rio e de São Paulo com carnaval de rua entra como uma crítica a esse carnaval do mundo do capital, do marketing. Mas esse movimento vai mudando. À medida que o sistema produtivo começa a perceber que um bloco reúne mais de 10 mil pessoas, ele se interessa. Então já tem cervejaria patrocinando os blocos. A tendência é que o carnaval de rua também vá se institucionalizando. O sistema produtivo não se interessa por uma coisa que não dê retorno a ele, seja de marca ou financeiro direito.

Hoje muitas escolas de samba trazem enredos patrocinados. O samba perdeu o caráter de crítica social? 

Sim, mas nesses tempos de corrupção, Lava Jato, Petrobrás, eu gosto de lembrar de uma historinha. Do samba “Pelo Telefone”, de 1916. Originalmente, Donga e Mauro de Almeida cantavam: “Pelo telefone o chefe da polícia manda me avisar, que na Carioca tem uma roleta para se jogar.” Eles denunciavam o chefe da polícia, que provavelmente recebia propina para deixar o jogo rolar no largo da Carioca. Mas quando foram gravar, a censura percebeu e não deixou. Mudou para “Pelo telefone o chefe da folia manda me avisar, que com alegria não se questione para se brincar.” Hoje exatamente cem anos depois onde fica a Petrobrás no Rio? No Largo da Carioca. Há cem anos o samba já denunciava falcatruas do poder público. Essa música é uma crônica do que estava acontecendo. No mesmo espaço geográfico do Rio de Janeiro o sambista há cem anos diz que havia corrupção. Mas os sambas atuais não têm feito mais essa crítica. O que existe hoje é o samba-exaltação. Onde a gente ainda vê crítica é um pouco nas marchinhas, nos blocos. Talvez por isso eles também atraiam tanta gente.

O sr. se refere ao uso das máscaras?

O carnaval traz uma ordem invertida daquela do cotidiano, daí vêm as críticas sociais. Mas assim como tinha o “amor de carnaval”, tem-se a “crítica de carnaval”. Sempre se lançou mão das figuras que estão mais em evidência. A máscara do Lula ninguém mais compra, ficou encalhada na 25 de março. E mesmo a do Joaquim Barbosa (ex-ministro do Supremo Tribunal Federal), que foi uma das que mais vendeu no ano passado, agora já tá encalhando. Não se fala mais nele no noticiário e as pessoas já nem sabem quem é. Neste ano o interesse é pela máscara do japonês da PF. Encontrei um Eduardo Cunha por R$ 19. Só não se fez industrialmente a máscara do Cerveró porque ele conseguiu coibir ameaçando processar a indústria do Rio que faz máscaras.

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