Wilton Junior/AE
Wilton Junior/AE

Exército diz que tráfico usou morador

Comandante vê ''ação orquestrada'' e destaca que suposta jovem morta não foi encontrada; população quer trocar soldados por UPP

Tiago Rogero / RIO, O Estado de S.Paulo

08 de setembro de 2011 | 00h00

A ocupação no Alemão completa dez meses com reclamações de todas as partes. O Exército alega que alguns moradores estão sendo usados pelos traficantes. E a população quer trocar os soldados pela Polícia Pacificadora.

O comandante militar do Leste, general Adriano Pereira Junior, vê uma "orquestração" criminosa nas ações verificadas desde domingo. "Estávamos envolvidos na investigação do que aconteceu, quando ocorreu a invasão", afirmou, referindo-se à ação de quatro militares que tentavam deter dois jovens vendendo drogas em um bar. "Ali começou o erro, (que foi) não perceber que se tratava de uma armadilha", disse, ao atribuir o episódio a uma estratégia do tráfico.

Ele refutou a versão de que o que motivou a reação dos militares foi a recusa dos frequentadores de baixar o som da TV. "Mesmo assim, os soldados foram afastados e um inquérito foi aberto para apurar o que houve."

O comandante também classificou como "uma trama" o relato feito por uma mulher à imprensa dizendo que sua sobrinha havia sido morta durante o tiroteio. "Procuramos em todos os hospitais a noite toda. Isso foi plantado para piorar o clima."

No entanto, o militar considera improvável que a ação se repita. "Foi um tiro no pé do tráfico. Ficou claro para a população que houve uma orquestração. O crime não quer a nossa presença lá", disse. "Existe tráfico lá dentro. Não há paz completa."

UPP. Morador do Alemão, o estudante Rene Silva Santos, de 17 anos, que ganhou notoriedade durante a ocupação de novembro, narrada pelo Twitter, e relatou a ação do tráfico anteontem pelo microblog, contou que os moradores voltaram a sentir um medo que já lhes parecia superado. "Hoje (ontem), já está tudo normal, mas à noite deu para ouvir bem os tiros."

Na comunidade, os moradores se dividem entre os que culpam a truculência por parte dos soldados e os que acreditam que uns poucos estão agindo sob influência dos traficantes. Só há um consenso: todos querem que a Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) substitua o Exército.

"Em vez de chegarem com arma, por que não dão um tapinha no ombro?", indagou o auxiliar administrativo Leandro Silva, de 22 anos. "Para quem, como eu, nasceu e cresceu na favela, e via vagabundo o dia inteiro com arma na mão, é difícil essa mudança de realidade", rebateu outro morador.

O clima de tensão ficou evidente quando militares tentaram desfazer ontem a barreira do tráfico na Rua Joaquim de Queiroz. Um grupo de nove soldados procurou, por 40 minutos, devolver as pesadas tampas à galeria de esgoto. A cada tentativa malsucedida, havia risadas de jovens. /COLABOROU ROBERTA PENNAFOT

DUAS PERGUNTAS PARA...

Gunther Rudzit, cientista político (USP), é mestre em Segurança Nacional e doutor em Segurança Internacional

1. Demorou para ter uma reação forte do tráfico?

Foi uma disputa local. Na retomada do Alemão, os traficantes fugiram, porque o confronto era contra as Forças Armadas. Mas nunca achei que ia ser um processo de entrar, pacificar e acabar de vez, em nove meses. Sempre achei que fossem voltar, mas "low profile", para evitar enfrentamento e perda de dinheiro. Nunca acreditei que o narcotráfico tivesse desaparecido.

2.O Exército é a força adequada para manter a ocupação por tanto tempo no Alemão?

O exército é capaz e foi necessário. Mas é arriscado. O soldado tem treinamento para matar e destruir o inimigo o mais rápido possível. O policial investiga e prende o bandido para ser julgado. Quando você coloca o soldado em área urbana tem de se preparar para danos colaterais. O atrito era de se esperar.

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