Execução policial no Jaçanã acaba com fogo em ônibus e 2 pessoas carbonizadas

Segundo testemunhas, vítimas são um boliviano e um morador de rua; até a noite, 14 suspeitos de envolvimento haviam sido detidos

RODRIGO BURGARELLI, O Estado de S.Paulo

10 de dezembro de 2012 | 02h03

Duas pessoas morreram carbonizadas na madrugada de ontem em um ônibus no Jaçanã, na zona norte. Segundo a polícia, o incêndio foi represália de bandidos a uma ação policial ocorrida uma hora antes, a poucos quarteirões dali, que terminou com a morte de um jovem. No começo da noite, seis policiais envolvidos foram presos (veja abaixo).

De acordo com testemunhas, uma das vítimas do ônibus seria um boliviano, que havia bebido em uma festa e dormia no ônibus esperando a partida - ele não teria percebido o início do fogo. O outro seria um morador de rua que atuava como zelador da praça e teria entrado no ônibus para tentar salvar o boliviano.

Estopim do incêndio, a abordagem policial ocorreu à 1h30 na Rua Basílio Alves Morango. Segundo a versão dos policiais, os dois ocupantes do Passat vermelho estavam armados e tentaram fugir ao perceberem a aproximação da viatura. Foi quando houve o suposto tiroteio e Maycon Rodrigues de Moraes, o Alemão, que teria passagem por tráfico, foi morto. O outro jovem, Walterney Marques da Silva Júnior, foi baleado e levado ao hospital, onde permanece internado.

Essa versão oficial foi durante todo o dia contestada por vizinhos e familiares da vítima, que dizem que os jovens não reagiram. Um parente de Maycon disse ao Estado que a truculência policial foi tanta que o irmão dele, Marcelo, teria sido internado com traumatismo craniano. Ao saber do tiroteio, ele teria ido ao local do crime, que fica perto da casa dos dois, e sido espancado pela polícia. Após o tiroteio, moradores ainda se reuniram em torno da viatura para protestar. Policiais teriam disparado tiros para o alto para dispersar a multidão.

Uma hora depois da morte de Maycon, um grupo jogou gasolina em um ônibus estacionado na zona norte, que pegou fogo e queimou as duas pessoas. Até as 19 horas de ontem, os corpos não haviam sido identificados. A menos de dois quarteirões dali, na Praça Ana Gutemberg, também no Jaçanã, um segundo ônibus foi queimado às 11 horas. Ninguém ficou ferido.

O clima de tensão permaneceu o dia todo na região. No quarteirão do tiroteio, bloqueado pela polícia, moradores se juntaram para protestar novamente e bombinhas de festa junina chegaram a ser jogadas contra os policiais. Amigos se reuniram com camisas com os dizeres "saudades eternas" e a foto de Maycon. Mais uma vez, segundo moradores, a polícia usou a força e disparou balas de borracha para dispersar a multidão.

Detidos. Pelo menos 14 suspeitos pelos incêndios haviam sido detidos pela polícia até o fim da tarde de ontem - alguns menores de idade. A polícia chegou aos primeiros nomes após três deles darem entrada em hospitais da região com queimaduras no corpo. Eles teriam dito que haviam se queimado em um churrasco. "Fomos lá e começamos a perguntar. Onde foi? Cadê o churrasqueiro? Cadê a carne? Eles não souberam responder", diz o delegado da Seccional Norte, Cosmo Stikovics Filho. A polícia vai apurar quais deles se envolveram no incêndio do primeiro ônibus. Eles poderão ser indiciados pelos dois homicídios.

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