Amanda Perobelli/Estadão
Amanda Perobelli/Estadão

Excesso de doações a vítimas de desabamento faz igreja fechar as portas

Só a Cruz Vermelha contabilizou, até esta terça, cinco toneladas de sacolas com roupas e alimentos

Juliana Diógenes, O Estado de S.Paulo

02 Maio 2018 | 12h32
Atualizado 03 Maio 2018 | 19h13

SÃO PAULO - A quantidade de doações para os desabrigados foi tão grande que, já na manhã desta quarta-feira, 2, a Igreja Nossa Senhora do Rosário, no centro, fechou as portas para a entrega de mais alimentos e roupas, por falta de espaço. Quem tentava deixar sacolas no local tinha o pedido negado pelo vigia, que alegava lotação. O próprio movimento de moradia que morava no prédio está recusando roupas. 

Os moradores pedem marmitex e fraldas. Por falta de cozinha comunitária no local, doações como arroz, feijão e óleo estão empilhadas, sem que possam ser utilizadas. Os desabrigados estão se alimentando de lanches como pães e bolachas desde terça-feira, 1º. 

As atividades da igreja foram temporariamente suspensas, pois todo o saguão foi tomado por pilhas de roupas e alimentos doados. Os bancos foram afastados para que todo o material coubesse. Até o fim da manhã desta quarta, a Cruz Vermelha já havia contabilizado 5 toneladas de sacolas com roupas e comida. 

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A Igreja Nossa Senhora do Rosário pede que as doações sejam levadas à Igreja de Santa Ifigênia, ao Santuário São Francisco, à Catedral da Sé e ao albergue do viaduto Pedroso, além da Cruz Vermelha. 

A assistente social Maria Luiza Lopes, de 59 anos, saiu na manhã desta quarta do Jaguaré, na zona oeste, carregada com seis sacolas de roupas, sapatos e itens de higiene. Emocionada, Maria Luiza disse que não há como não se comover diante de uma situação de “calamidade” dessas. “Temos de estar abertos e com esse olhar de ajudar os outros. Só rezar não é nada.”

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Moradora do edifício que desabou havia cinco anos, Lohany Mickely, de 37 anos, passou a noite em um colchão doado em frente à igreja. Ela relata ter sido acordado por seu cachorro na madrugada no incêndio. “Ele ficava mordiscando, arranhando a porta. Aí seguimos ele”, conta. Ela conseguiu apenas salvar o cão e o celular dela e do marido.

Lohany disse que a noite foi “estranha e tranquila” e ainda não sabia nesta quarta, durante o dia, onde iria dormir. Não pretendia, porém, ir para um abrigo temporário. 

Também no local, Leig Laura Aprigio, de 36 anos, passou a noite em uma barraca emprestada junto do marido e dos filhos, de 8 e 15 anos. “Ainda bem que teve a barraca, porque estava muito frio de noite.” Eles estavam no edifício havia menos de um mês após terem sido expulsos de uma casa que invadiram em Bertioga, no litoral paulista. 

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Falsos moradores. Uma das líderes do Movimento de Luta Social por Moradia, identificada como Josi, diz ter visto outras pessoas de fora do movimento se passando por moradores. Ela afirma, porém, que os falsos moradores são denunciados pelas próprias vítimas que residiam no edifício. “São oito anos morando juntos, não são oito dias. Sabíamos quem morava ali.”

Outro líder do movimento, Fagner Apolinário da Silva, de 32 anos, também afirma que falsos moradores se apresentaram para receber os benefícios de auxílio e doações. "Alguns que não são do movimento invadiram o nosso espaço, mas já botamos para fora. Temos os nomes das pessoas que realmente moravam lá para poder mapear bem.”

Montada na lateral da Igreja, a tenda da Secretaria Municipal de Assistência Social auxiliava nesta quarta famílias que moravam no prédio. O espaço é destinado a quem morava no prédio e também para os parentes que buscam desaparecidos. /COM PRISCILA MENGUE

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