Ex-legista é preso por fazer aborto em São Paulo

Isaac Abramovitch, médico que integrava equipe de Harry Shibata durante a ditadura, foi detido em Pinheiros

Josmar Jozino, do Jornal da Tarde,

19 de março de 2008 | 00h43

O médico Isaac Abramovitch, 74 anos, ex-integrante da equipe do legista Harry Shibata, que forjava laudos envolvendo presos políticos na época da ditadura militar, foi detido às 15h30 de terça-feira, 18, pela acusação de prática de aborto. A clínica dele, na Rua João Moura, 645, em Pinheiros, Zona Oeste da Capital, foi fechada à tarde pela Polícia Civil e a Vigilância Sanitária. Na casa do acusado, no mesmo bairro, foram apreendidas três armas.   Até as 22h40, o médico continuava detido no 14º Distrito (Pinheiros). Segundo a Polícia Civil, ele foi autuado em flagrante por porte ilegal de arma e por manter em depósito remédios com validade vencida. Na casa dele, homens do Grupo de Operações Especiais (GOE), unidade de elite da Polícia Civil, encontraram um revólver calibre 38, outro calibre 32 e uma pistola 765 com silenciador.   Abramovitch era investigado por prática de aborto. Na clínica médica, policiais encontraram uma passagem secreta. Ela levava a um quarto pequeno, onde as pacientes ficavam. Foram apreendidos medicamentos vencidos e seringas possivelmente reutilizadas. Segundo fiscais da Vigilância Sanitária, o certificado de funcionamento da clínica estava vencido e o local não tinha as mínimas condições de higiene.   A prisão foi coordenada pelo delegado Luiz Antonio Pinheiro, supervisor do GOE. A Polícia Civil informou que Abramovitch irá responder a processo por uso de medicamentos vencidos. Já o Ministério Público Estadual (MPE) irá acusá-lo pela prática de aborto.   Além das armas, policiais civis localizaram ainda na casa do médico outros lotes de remédios com a data de validade vencida. A Polícia Civil acredita que Abramovitch pratica aborto havia pelo menos 20 anos. Testemunhas disseram no DP que o médico exercia essa atividade ilegal havia 40 anos.   Ditadura   Ivan Seixas, da Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos, disse na terça-feira que Abramovitch era um médico comprometido com a tortura. De acordo com Seixas, o médico assinou vários atestados de óbitos de vítimas da ditadura militar.   Membro da equipe do polêmico legista Harry Shibata, ele participou da elaboração de laudos falsos para vítimas de tortura do regime militar, como no caso Waldimir Herzog. Shibata era acusado, inclusive de instruir os torturadores a não deixar marcas de suas ações nos corpos dos torturados. Abramovich é acusado de emitir laudos necroscópicos falsos de vítimas da polícia política, nos anos 70, quando trabalhava no IML (Instituto Médico Legal) de São Paulo. Num artigo publicado no jornal O Estado de São Paulo consta que, em 1973, ele teria assinado o laudo de Alexandre Vannucchi Leme, no qual afirma que o estudante teria sido vítima de atropelamento. Ele era primo do ministro Paulo Vannuchi Leme, da Secretaria Especial de Direitos Humanos.

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