Ex-governador Fleury diz que ação da PM foi 'legítima' ao invadir Carandiru

Ele assumiu 'responsabilidade política' pelo que ocorreu; em seu governo, disse ainda que o PCC era 'o time de futebol da prisão'

BRUNO PAES MANSO , MÔNICA REOLOM, O Estado de S.Paulo

17 de abril de 2013 | 02h05

No depoimento mais esperado até agora, o ex-governador Antonio Fleury Filho, que estava à frente do Estado em outubro de 1992, quando da morte dos 111 presos na Casa de Detenção do Carandiru, defendeu a legitimidade da entrada da Polícia Militar no Pavilhão 9. "A entrada da PM foi absolutamente necessária e legítima. Havia presos se matando e minha polícia nunca se omitiu."

Na tarde de ontem, ele explicou que, apesar de não ter dado a ordem para o ingresso da PM, se estivesse em seu gabinete teria dado. O depoimento de Fleury foi um dos mais curtos do julgamento e durou só 30 minutos.

No dia da invasão, o ex-governador contou que estava em Sorocaba, no interior do Estado, em campanha política. No dia seguinte, ocorreriam eleições municipais. Fleury saiu de Sorocaba por volta das 16h30 e voltou ao Palácio dos Bandeirantes de helicóptero. O tempo estava chuvoso e o voo demorou. Ele chegou a São Paulo depois que a PM havia entrado na Casa de Detenção.

Fleury assumiu a responsabilidade política no episódio, que acabou influenciando sua carreira nos anos que se seguiram. "A responsabilidade política é minha. A criminal, os senhores jurados é que vão decidir", afirmou, dirigindo-se aos integrantes do conselho de sentença.

O ex-governador se alterou algumas vezes durante o depoimento. A advogada de defesa, Ieda Ribeiro de Souza, insistiu em saber as razões para o ex-governador não se empenhar em obter mais informações sobre o inquérito e sobre os procedimentos da PM. "Governador não é presidente de inquérito. A senhora não sabe o que é administrar São Paulo. A inflação era de 40%, havia 1,5 milhão de desempregados, houve 5 ministros da Fazenda. Não interferi nas investigações e deixei que fossem conduzidas com independência."

Ele também subiu o tom quando o promotor Márcio Riggi leu notícias publicadas em 1992 informando que Fleury, na época, havia classificado a invasão da polícia como "criminosa" e a descrito como uma "chacina". "Não disse isso", afirmou, explicando que os jornais distorceram suas declarações.

Fleury afirmou ainda que não era sua obrigação ir ao local do crime, mesmo depois da suspeita de mais de 50 mortes no Carandiru. "Não era obrigação do governador", ressaltou Fleury. O ex-governador não quis se manifestar sobre o que pode ter ocorrido dentro do presídio, depois do ingresso dos policiais.

Coronel Ubiratan. Logo depois do depoimento de Fleury, foi a vez de o ex-secretário da Segurança Pedro Franco de Campos, dar um breve depoimento. Franco, que atualmente é procurador do Estado, disse que, no episódio, concedeu autonomia ao coronel Ubiratan Guimarães para decidir o que fazer. "O senhor avalia a situação. Havendo necessidade de entrar, o senhor deve entrar. Depois do episódio, fiquei tranquilo de que a necessidade da entrada era absolutamente necessária", disse.

Apesar de ter ficado com a pecha de ter sido secretário dos 111 mortos do Carandiru, Franco tentou mostrar completo afastamento do caso nos últimos 20 anos. Afirmou nunca mais ter dado nenhuma entrevista sobre o episódio, testemunhando quando convocado. "Nunca mais quis ter informações a respeito."

PCC. O ex-governador Luiz Antonio Fleury Filho disse ontem que o Primeiro Comando da Capital (PCC), no seu governo, era apenas um time de futebol autorizado a disputar campeonatos na prisão. Para o ex-governador, o fortalecimento da facção ocorreu no governo que o sucedeu, do tucano Mário Covas, a partir das diversas rebeliões que ocorreram. "Foram 22 rebeliões em 60 dias nos primeiros dois meses do governo Covas", disse. "No governo (Franco) Montoro (1982-1985) surgiram os Serpentes Negras, negadas pelo governo. No meu governo (1991-1994) desapareceram notícias de facções criminosas, que voltaram a surgir no governo Covas."

Em entrevista dada ao Estado em outubro, Fleury disse à reportagem que as rebeliões eram formas de os presos obterem transferência para outros presídios. Dessa forma, eles podiam replicar nas outras unidades as ideias da facção nascente. Também admitiu que não deu a ordem de invasão. "Mas daria."

Na saída, ele se recusou a conversar. "Já falei 20 anos sobre o Carandiru", disse. Um dos jornalistas disse que algumas perguntas ficaram sem respostas. "Para ouvi-las, o senhor deveria estar sentado aqui", afirmou, apontando o júri.

Próximos passos. A pedido do Ministério Público Estadual, os jurados começaram a ler as peças do processo por volta das 17h30 de ontem. A leitura deve se estender pela manhã de hoje. Depois, quatro réus vão depor. Os nomes dos réus que serão ouvidos não foram passados pela advogada Ieda Ribeiro de Souza.

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