Ex-chefe de polícia do Rio é indiciado por ajudar milícia

Allan Turnowski teria repassado informações para inspetor ligado a uma milícia que atua na zona norte da cidade

Pedro Dantas e Bruno Boghossian, O Estado de S.Paulo

18 Fevereiro 2011 | 00h00

O delegado e ex-chefe da Polícia Civil do Rio Allan Turnowski foi indiciado, no início da noite de ontem, por violação de sigilo funcional pela Polícia Federal. Ele é acusado de passar informações sobre a investigação da PF para o inspetor Christiano Gaspar Fernandes, ligado a uma milícia de Ramos, na zona norte, e acusado de desviar bens de traficantes presos. O policial estava sob monitoramento telefônico e foi preso na Operação Guilhotina.

Após prestar depoimento na Superintendência da PF do Rio pela segunda vez, Turnowski negou que tenha avisado Christiano. O ex-chefe da Polícia Civil rebateu ainda o indiciamento pelo delegado da PF Allan Dias, que indica que Turnowski havia sido informado sobre a operação pelo secretário de Segurança, José Mariano Beltrame. "Antes de eu ser indiciado, teria de perguntar ao secretário de Segurança se ele se comunicou comigo", afirmou. Em nota, a Secretaria de Segurança confirmou que Beltrame não foi ouvido pela PF nem sabia da Operação Guilhotina.

Durante a gestão de Turnowski, há indícios de que a milícia formada por policiais com influência na cúpula da instituição se tornou o primeiro grupo paramilitar a usar a estrutura do Estado, em operações policiais oficiais, para tentar eliminar traficantes de favelas e estabelecer a sua atuação. A constatação é do delegado Alexandre Capote, da Delegacia de Repressão às Atividades Criminosas (Draco).

Segundo ele, a promiscuidade entre milicianos e traficantes já não era novidade. Em dezembro de 2010, em uma operação comandada por ele, a Draco desarticulou uma milícia que atuava em Duque de Caxias. A investigação constatou que a quadrilha vendia rotineiramente armas a traficantes do Complexo do Alemão.

O uso por milicianos e até traficantes do aparato bélico do Estado para tomar favelas também não era inédito. Desde 2007, a ONG Justiça Global denuncia que policiais alugam blindados para facções de traficantes nas invasões para tomar bocas de fumo de quadrilhas rivais. Foi o caso da invasão à Vila dos Pinheiros por traficantes da Baixa do Sapateiro, no Complexo da Maré, em maio de 2009. Segundo denúncia à Secretaria de Segurança, os criminosos alugaram o blindado por R$ 120 mil.

Coreia. Em depoimento à corregedoria, o delegado titular da Draco, Cláudio Ferraz, revelou diálogo de uma interceptação telefônica autorizada pela Justiça onde o sargento da PM Julio Cesar Fialho, que seria ligado à milícia Águia do Mirra, combina com outro miliciano uma operação da Polícia Civil na Favela da Coreia, com dois blindados e um helicóptero. Os diálogos foram revelados pelo jornal Extra.

As constantes incursões da Polícia Civil na Favela da Coreia, alvo dos milicianos, ainda foram retratadas no documentário inglês Dancing with the Devil (2008), de Jon Blair.

Um dos protagonistas é o inspetor da Polícia Civil Leonardo da Silva Torres, o Trovão, preso na Operação Guilhotina sob as acusações de vender armas e informações a traficantes. Em uma cena do documentário, ele afirma ao entrevistador que os criminosos do Complexo do Alemão são tão agressivos quanto os da Coreia. Questionado sobre como o Rio chegou nesse nível de violência armada, ele ri e culpa os consumidores de drogas.

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