Evento ensina a ser drag

Oficina é parte da Feira Cultural LGBTT, que reuniu 150 mil pessoas, ontem, no centro

Paulo Sampaio, O Estado de S.Paulo

04 de junho de 2010 | 00h00

"Sempre sonhei ser uma drag queen."

Nada mais natural do que ouvir isso em uma oficina intitulada "Nasce Uma Drag". Quando, porém, o aluno é uma lésbica assumida, os ensinamentos da oficina transcendem corpetes, perucas e maquiagem pesada. "Sou um caso a ser estudado", brinca a terapeuta holística Ana Carolina Toledo, de 23 anos, atualmente sem namorada. "Enfrento problemas na própria comunidade. Não é todo mundo que aceita", continua, enquanto retoca a sombra azul-escura.

A oficina é parte da 10.ª Feira Cultural LGBTT, que reuniu ontem no Vale do Anhangabaú, no centro, 150 mil pessoas, segundo a organização.

Na tenda das drags, quatro veteranas ensinam 12 alunos a se montar. Sentados em mesas brancas, mexendo com pincéis em potinhos com cremes coloridos, os alunos parecem estar em uma classe de jardim da infância. "Lúdico, né?", comenta a professora-drag Dindry Buck.

Ao lado está a colega Sissi Girl. Dentro de um corpete tomara que caia de pedrarias, uma microssaia de penas verde e amarela e diversos braceletes, colares e pulseiras, Sissi explica aos alunos que seu penteado gigante é formado por cinco perucas. Os cílios, diz ela, são 201. E o que isso significa? "O mais comum, para quem sai na rua ou vai a uma festa, é 60."

Agora é a vez de Lilly Cow. Em um tom altamente professoral, ela pergunta: "Dá para trabalhar com vários tons de base ao mesmo tempo?" Ela mesma responde: "Claro, gente. O importante é iluminar a zona T, de cima para baixo."

Um dos alunos, Victor Rafael, de 20 anos, conta que aprendeu a "ocultar a sobrancelha". "Olha (ele mostra): você passa uma base por cima dos pelos e faz o traço fino com lápis."

Já transformado em Sophie, Victor, que é funcionário público, diz: "Vou sair no jornal? Lá se vai minha carreira no Estado!"

Entre as 73 barracas havia ainda oficinas de fotografia, DJs, psicodrama anti-homofobia e psicologia ("Monte Sua Família: (Re)conhecendo Possibilidades"). Mas o maior sucesso é uma tenda de roupas em que se vendem cuecas Calvin Klein a R$ 20 (três por R$ 50). "Isso é falsificada!", diz o auxiliar administrativo Geraldo Machado, de 29 anos, comprando três.

Ao lado da tenda das drags, dois professores de kickboxing ensinam "noções" de artes marciais a um grupo de dez alunos. Segundo Bruno Cardoso, de 26 anos, e Júlio César Salvador, de 40, que não são gays, a possibilidade de pegar um aluno "descoordenado" é a mesma. "Um "campeãozão" superconhecido, que a gente não vai dizer o nome, é gay. Ninguém sabe."

Pergunta prática: como se defender de um ataque de skinheads? "Aí, amigo, só com um "trêsoitão"", riem.

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