Eva Wilma, a porta-voz do Itaim

Foi em uma festa pequena, no teatro do bairro, que uma das mais ilustres moradoras do Itaim-Bibi, na zona sul, ganhou o título de cidadã ithayense. Apesar de acostumada a homenagens, Eva Wilma foi surpreendida pelo prêmio na segunda-feira passada. Aos 77 anos, a atriz paulistana descobre novos palcos e encarna novos personagens para defender o quarteirão em disputa na frente de sua casa. A Prefeitura quer trocar a área, avaliada em mais de R$ 200 milhões, por creches.

ADRIANA FERRAZ, O Estado de S.Paulo

09 Outubro 2011 | 03h02

Dona Eva, como é conhecida pelos vizinhos, ou Vivinha, como é carinhosamente chamada por parentes, faz campanha contra o projeto. Para combatê-lo, revive seus tempos de militante política, cujo auge ocorreu na campanha das Diretas Já, em meados dos anos 1980. Hoje, representa a voz do bairro. E, em alto som, reivindica a permanência do espaço em reuniões, audiências públicas e até passeatas.

Após a homenagem, realizada durante a comemoração dos 77 anos do Itaim-Bibi, a atriz subiu ao palco do Teatro Municipal Décio de Almeida Prado - um dos oito equipamentos sociais instalados no quarteirão, entre escolas e postos de saúde- e pediu a cerca de 200 pessoas que não desistam da batalha. Da plateia, recebeu aplausos do filho caçula e dos netos, acostumados ao espaço.

"Há 31 anos ouço as mais de 2 mil crianças que estudam na escola municipal cantarem as duas estrofes do Hino Nacional logo de manhã. O barulho delas no recreio, na aula de ginástica e na sala de aula é um bálsamo", diz a moradora, que nasceu ali perto, nos Jardins.

Quando se mudou para a Rua Cojuba, uma das vias que formam o quarteirão, só havia o prédio de oito andares onde mora. "Podia até enxergar o pôr do sol. Mas todas as casas foram derrubadas e trocadas por espigões. O quarteirão que sobrou é um respiro, um verdadeiro oásis."

Eva afirma que sua luta é pelo direito à qualidade de vida. "Não defendo só o teatro ou a biblioteca, mas as escolas, o posto de saúde onde vou todo ano tomar a vacina contra a gripe, a unidade da Apae, a creche da igreja. É uma questão de humanidade", diz a atriz, que vive uma relação de amor com a região. É no Empório Itaim que compra o pão de manhã, no Shopping Iguatemi que faz compras e nos restaurantes da região que experimenta as delícias da cidade.

Tia Íris. Atualmente, Eva divide-se entre São Paulo e Rio. Ela começou a gravar a novela Fina Estampa, da Rede Globo, na pele da Tia Íris, que promete revolucionar a trama. Mas a ponte aérea não a impede de cumprir sua função. Na última segunda, por exemplo, pegou o avião só para participar da festa de aniversário do bairro.

Entre tantos personagens, este é, na sua opinião, um dos mais importantes. "É o exercício da cidadania. Tenho consciência de que a popularidade está acompanhada de responsabilidade. A gente não pode deixar os governantes fazerem o que querem."

Nos eventos realizados contra a venda do terreno, ela é sempre o centro das atenções. Vizinhos comemoram o apoio e a presença da atriz e ex-bailarina clássica tantas vezes premiada. Ainda na adolescência, foi aplaudida em apresentações no Teatro Municipal, um de seus locais preferidos na capital.

Eva caiu nas graças do público nos anos 1950 e 1960, quando a extinta TV Tupi apresentou a série Alô Doçura. Foi nesse trabalho que conheceu o ator John Herbert, com quem formou o casal mais famoso da TV na época e teve dois filhos: Johnnie e Vivien. A união terminou em 1976. Mas a diva refez a vida com o também ator Carlos Zara, morto em 2002. Foi com ele que, por 25 anos, ela passeou pelas ruas do Itaim, acompanhando a transformação da vizinhança. Herbert faleceu em janeiro deste ano.

Em 58 anos de carreira, a lista de sucessos é extensa: inclui as gêmeas Ruth e Raquel, da primeira versão de Mulheres de Areia, em 1973, a vilã cômica Maria Altiva Pedreira Mendonça de Albuquerque, de A Indomada, em 1997, e outras tantas personagens do teatro, como a Querida Mamãe, encenada entre 1994 e 1996, pela qual recebeu o prêmio Molière de melhor atriz.

Coração. Amigo e companheiro de luta, o frei Paulo Gollarte, de 79 anos, afirma que a voz de Eva ecoa para além do bairro. "Por ser uma artista reconhecida, chama a atenção para a nossa causa. E faz isso de coração, sempre que não está se apresentando ou gravando no Rio."

A amizade entre os dois é antiga. Desde que se mudou, Eva participa da missa na Paróquia Santa Teresa de Jesus, a menos de um quilômetro de seu apartamento, sempre às 11h de domingo. Mas quando chegou ao bairro, a atriz não imaginava que um dia teria de exercer outro papel. "Sou otimista. Acredito nas lutas populares. A Prefeitura pode fazer creches em outros lugares. Sem o quarteirão, vamos respirar muito mal."

Atriz global revive papel de militante política ao defender, em

nome do bairro, a permanência do quarteirão da cultura

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