Robson Fernandjes/Estadão
Robson Fernandjes/Estadão

‘Eu tenho um programa de metas, o Lula tem outro’, diz Haddad

Prefeito de São Paulo diz que tem ‘reflexões próprias’ sobre eleições de 2014, mas está mais preocupado com a gestão da cidade

Artur Rodrigues e Rodrigo Burgarelli,

06 de abril de 2013 | 22h27

Em entrevista ao Estado, Fernando Haddad (PT) adota o discurso de que não tem tempo para pensar em seu futuro político e minimiza seu papel na reeleição da presidente Dilma Rousseff. Ao mesmo tempo, torna-se peça mais importante do tabuleiro político nacional, seja ao adiar o reajuste da tarifa de ônibus para segurar a inflação, ao assumir a dianteira das renegociações das dívidas dos municípios ou a emparedar o governador Geraldo Alckmin (PSDB) para adotar o bilhete único mensal. 

O ex-presidente Lula disse que a prioridade do PT para 2014 é reeleger a presidente Dilma. O que o senhor fará para ajudar a cumprir a meta?

Então, eu tenho um programa de metas, e ele (Lula) tem outro. Se cada um cumprir o seu.

Mas o senhor tem um peso grande no partido por ser prefeito da maior cidade do País.

Eu como prefeito tenho um plano de metas. A melhor coisa que posso fazer pelo meu partido, pela presidente, pelos candidatos das nossas coligações é fazer o trabalho que estou procurando realizar.

O senhor conversa com o ex-presidente Lula? Ele tem influência na gestão da cidade?

Bem, na verdade, não. A gente está conversando mais sobre política. Ele me fez uma visita de cortesia aqui com o pessoal do instituto, uma conversa rápida e agradável, mas tratamos mais de política. 

Assuntos nacionais?

Não, o que se discute são teses mais gerais, da importância da parceria para São Paulo, o exemplo que São Paulo pode dar no sentido de criar vitrines de políticas públicas.

O senhor tem negociado com o governo federal a questão da dívida dos municípios. O prefeito de São Paulo deve ter um papel de liderança?

O prefeito de São Paulo, assim como o das capitais em geral, de São Paulo e Rio, em particular, tem até o dever de contribuir com o debate político em torno da relação federativa. 

É uma maneira de a imagem do senhor ser nacionalizada, até para o seu futuro político?

Não, estou três meses administrando a cidade. Estou pensando no meu presente, que já está bastante complicado (risos).

E em relação à eleição para o governo estadual, como o senhor acha que sua atuação influencia?

Eu pretendo colaborar com o partido, tenho reflexões próprias, independentes, de alguém que deseja sucesso, o melhor. Mas, em primeiro lugar, isso tem local e data para acontecer. E não é agora. 

Há fatores que podem influenciar na eleição. Um deles é adoção do bilhete único mensal pelo Metrô. O senhor não tem medo de sofrer o mesmo que a ex-prefeita Marta Suplicy sofreu ao não conseguir que o governo estadual fizesse a integração?

A situação é inversa agora. Porque a Marta implantou bilhete único depois da eleição para o governo do Estado. Então, não era um assunto estadual, era um assunto local. O governador já estava eleito. Agora a situação é inversa.

O senhor acha que o governador pode ser cobrado nas eleições se não adotar?

Você está me perguntando e estou te respondendo. Você está fazendo uma comparação que não cabe porque a situação é inversa. Até por justiça tenho de dizer: não me parece que o governador tenha pautado suas decisões pelo cálculo eleitoral. Nesses primeiros meses, tenho tido apoio dele, que tem sido decidido por critérios técnicos. 

O senhor mudou a Operação Delegada, a Prefeitura não pretende continuar com as tendas para moradores de ruas, mudou o esquema da inspeção veicular. Foram várias bandeiras do ex-prefeito Gilberto Kassab que saíram do foco da Prefeitura.

E outras que foram mantidas, sempre elogiei as intervenções nas áreas de mananciais, urbanização de favelas, em Heliópolis.

O senhor acha que para imprimir sua marca tem de enterrar a do Kassab?

Eu não vejo assim. Acho que para imprimir uma marca você tem de cumprir o que prometeu fazer, independentemente de ser de continuidade ou não. Um projeto de urbanização de favelas em áreas de mananciais seria contraditório se eu abortasse esse projeto. Agora, se eu mantivesse a taxa de inspeção as pessoas iriam me cobrar na rua. Eu tenho de ser coerente com as ideias que eu defendi, sem me preocupar se isso agrada ou desagrada ex-prefeitos em geral, não é só o anterior, qualquer prefeito que me antecedeu. 

A oposição acusa o senhor de eliminar projetos e não colocar nada no lugar, como no caso da revitalização da cracolândia. 

O problema do PSDB é que ele vive um momento difícil. Tem um discurso na Assembleia Legislativa e um diferente na Câmara Municipal. No caso da inspeção isso ficou claro, assim como no caso da Casa Paulista (órgão do governo do Estado que fará parceria com a Prefeitura para habitação popular no centro). Em vez de o PSDB da Câmara elogiar a parceria inédita para trazer morador para o centro, ele critica, e não estamos falando das 2 mil habitações da Nova Luz, estamos falando de 20 mil.

Sobre a inspeção veicular, quem não passa tem de pagar. Dá para dizer que a taxa acabou?

Dá para dizer que estamos isentando uma inspeção de cada. Imagine alguém que precisa de dez inspeções para passar? É justo com aquele que regulou seu motor? Não é razoável. 

O senhor fez um plano de metas menor que o plano de governo. Ainda vai cumprir todas as promessas de campanha?

Eu deixei claro na entrevista de lançamento que um documento não substitui o outro. 

O dinheiro do Metrô, que o senhor havia prometido na campanha, não está no plano. 

Temos de estabelecer em que bases. O que eu dizia na campanha? Que nós não podemos simplesmente repassar recurso para o Metrô e ver isso aplicado no sistema financeiro. 

Nesses primeiros meses, há dias em que a agenda do senhor começa às 6h e acaba às 20h. Aguenta ainda uns 8 anos à frente da Prefeitura?

Rapaz, se eu te contar que quando eu chego em casa ainda trabalho um pouco. Eu gosto disso aqui. 

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