'Eu sabia', diz Nayara sobre morte de Eloá

Médica da jovem diz que ela não poderá depor amanhã, ao ter alta

Diego Zanchetta, de O Estado de S. Paulo,

21 de outubro de 2008 | 00h54

  "Eu sabia que isso acabaria acontecendo." Foi com essa frase, por volta das 10h45 de ontem, que a adolescente Nayara Rodrigues, de 15 anos, reagiu à morte da amiga, Eloá Pimentel, da mesma idade. Nayara recebeu a notícia por meio de um grupo de psiquiatras. Deitada em um dos leitos do Centro Hospitalar de Santo André, aos prantos, ela chegou a pedir para ir ao velório, mas foi proibida pelos médicos.  Veja também:Nayara passará por nova cirurgia na terça-feira Conselho quer inquérito contra a PMCorpo de Eloá será enterrado em cemitério de Santo AndréLindemberg teme ser morto na cadeia e advogada fará a defesa100 horas da tragédia no ABC Saiba como foi o fim do seqüestro Confira cronologia do seqüestro Galeria com imagens do seqüestro Todas as notícias sobre o caso Imagens da negociação com Lindemberg Alves I  Imagens da negociação com Lindemberg Alves II  Especialistas falam sobre o seqüestro no ABC Eloá, 'uma menina falante'; Lindemberg, 'um trabalhador' Seqüestro em Santo André é o mais longo registrado em SP Coube à psiquiatra Suely do Valle Yatsuda dar a notícia à adolescente. Segundo a médica, Nayara contou que teria feito um "pacto espiritual" com Eloá. "Elas combinaram que uma cuidaria da outra se algo acontecesse. Desde o início, elas estavam prevendo o pior", disse Suely, que afirmou que a adolescente não está apta a depor amanhã. "Ela está de luto. Não deve depor ou voltar às aulas", afirmou . Suely estava acompanhada do também psiquiatra Clóvis Alexandrino e das psicólogas Marcia Guerra e Célia Gomes. De acordo com ela, Nayara deve ter alta hoje, após nova cirurgia, marcada para a noite de ontem. O procedimento é para a retirada de um aparelho usado na reconstrução de parte dos ossos do céu da boca.  AJUDA Nayara levou um tiro na boca do seqüestrador Lindemberg Alves, de 22 anos, na última sexta-feira. O caso mobilizou as polícias Civil e Militar durante mais de cem horas na semana passada. A adolescente chegou a ser libertada dois dias antes, mas voltou ao apartamento de Eloá, um conjunto habitacional na periferia de Santo André, para ajudar nas negociações pela libertação da amiga, que foi morta com um disparo na cabeça. Ontem, os peritos passaram no hospital para levar o projétil retirado da boca da Nayara para análise.  Segundo Homero Nepomuceno, secretário de Saúde de Santo André, o quadro clínico de Nayara é estável. Acompanhada pelos pais durante todo o dia, ela já recebe alimentação pastosa – em lugar da líquida – e não toma mais sedativos. Os médicos, contudo, não permitiram o depoimento da paciente a policiais militares, que estiveram ontem no hospital, segundo os próprios PMs, para "acompanhar a evolução do estado de saúde da garota". DEPOIMENTO A reportagem do Estado apurou que os PMs queriam ouvir a menina em caráter informal. "Não existe pressão da PM. Houve uma consulta sobre o quadro clínico de Nayara. Eles foram informados que o quadro dela é apático e alternante. Ao mesmo tempo em que ela diz que já sabia que a colega iria morrer, ela também diz que isso não poderia ter terminado dessa forma", afirmou o secretário. "Mesmo quando ela for depor oficialmente, será necessário um acompanhamento psicológico para evitar questões que abalem ainda mais sua estrutura emocional."O depoimento de Nayara é considerado decisivo para as investigações. A jovem poderá responder se houve realmente um disparo do seqüestrador antes da invasão dos homens do Grupo de Ações Táticas Especiais (Gate), versão sustentada pela Polícia Militar para legitimar o início da ação com explosivos para arrombar a porta do apartamento onde estavam as reféns, ou confirmar a versão de Alves, que alega ter começado a atirar apenas após a invasão dos policiais.Questionado pela reportagem, o sargento Atos Valeriano, da Força Tática do 41º Batalhão, disse que estava no hospital de folga, apenas para acompanhar o prontuário médico e a evolução da paciente. O sargento estava com outros dois policiais também à paisana. NEGOCIADOR  "Quero oferecer ajuda, ninguém veio aqui para pegar depoimento", disse o sargento, que foi o primeiro a negociar com o seqüestrador, na segunda-feira. "Um dos tiros dele passou a 30 centímetros da minha cabeça", contou o policial. Valeriano contou que conversava com Alves da janela do banheiro quando o seqüestrador efetuou os primeiros disparos, ainda na noite de segunda-feira. Em razão dos tiros, o jovem responderá também por tentativa de homicídio contra o sargento Valeriano. O policial relatou ainda como foram as primeiras negociações com Alves. De acordo com Valeriano, o seqüestrador foi agressivo desde o primeiro instante. Depois quase ter se tornado vítima de Alves, o policial ligou para o seqüestrador, perguntando o motivo da agressão. "Ué, você é policial e tem medo de tiro?", respondeu o seqüestrador em tom irônico. RECUPERAÇÃO Ainda não há previsão para o depoimento de Nayara na Polícia Civil. Amanhã, antes de deixar o hospital, a adolescente passará por uma avaliação de dois dentistas, que decidirão se recolocação ou não o aparelho ortodôntico retirado para a cirurgia de reconstrução do céu da boca. Luciano Vieira, pai de Nayara, afirmou que a filha está se recuperando bem. Informado de que o seqüestrador estava com medo de morrer no Centro de Detenção Provisória (CDP) de Pinheiros, na capital, Vieira demonstrou ceticismo. "Não quero nem saber o que está acontecendo com ele, estou preocupado com a minha filha."

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